sexta-feira, outubro 26

o par de escritas: 2

Para Sue, a amiga que deixa caber o infinito

Stela, lembro bem dela, era uma menina quieta, falante, mas de uma falância muda, se é que se pode dizer assim. Marta tinha os dedos sempre cruzados debaixo da blusa, confiava num acaso promissor, um horizonte paradisíaco aonde chegaria apenas se acreditasse nele. Nunca vi olhos tão luminosos em minha vida. Não me lembro mais como se encontraram pela primeira vez. Sei, no entanto, que o tal encontro despertou nelas uma falância diversa, mas também muda, que desde então não cessaria. Escreviam cartas uma a outra, quase diariamente, para o estranhamento de todos, dada a proximidade de suas casas. Encontravam-se rotineiramente e conversavam de modo distraído e alegre como fazem todas as amigas, mas isso não bastava. Precisavam escrever, e era na escrita que impunham uma gravidade na voz, um tom subterrâneo para tocar os assuntos do mundo.

Mal sabiam, entretanto, que interessava menos os assuntos do que o próprio tom, aquele canto caligrafado, cifrado, quase. Escreviam sem motivo, como num vício. Era um puro estremecimento, um modo de deixar os acontecimentos suspensos, os pêlos hirtos. As pessoas viam aquela troca de envelopes meio amassados com os olhos enviesados, a eles pareciam cartas de amor.

As letras eram mesmo tóxicas, sabiam. A palavra tinha o peso de uma pedra dura e aquelas meninas jogavam essas pedras uma a outra com o cuidado de quem experimenta um escândalo. Trocavam, escandalosamente, palavras em estado de choque. Criaram um espaço onde podiam deixar passar o extraordinário, que ficava, antes, retido nos olhos. Mal entendiam o que liam, porque descomunicavam o mundo. Certa vez, Marta passara um longo tempo num país longe e frio. Stela ficara aqui, imaginando que a amiga, morando numa casa que mais parecia um castelo, era rodeada por um longo gramado uniformemente plano. Parecia um deserto sem areia, muito verde. Talvez porque era assim a solidão que Marta sempre sentiu, feita de um deserto úmido. Stela dizia que a solidão de Marta era bonita de olhar, era imensa, mas doce, uma paisagem, uma pintura.

Com a distância, as cartas podiam ser trocadas mais à vontade. Marta escrevia várias e Stela as recebia com o coração meio aos pulos, sentir-se o destino daquela escrita era como ter permissão para entrar naquele deserto úmido e olhar o quanto quisesse aquela imagem fascinante e vertiginosa. Mas agora as cartas que recebia, além do canto, traziam um mundo distante, um impulso pra fantasia pueril de Stela, que continuava, na sua falância muda, a falar sobre nada. Agora, era diferente, as cartas eram de viajante, e tinham um cheiro de cereja rosa, cheiro que Stela jamais experimentara.

Marta voltou daquele país frio e ainda hoje, já adulta, escreve a Stela. Talvez mesmo vizinhas sempre vivessem em países distantes, talvez nunca duas pessoas tivessem sido tão próximas. Escrevem, ainda hoje, cartas sem conteúdo. É um modo de convocar uma abertura no chão e vislumbrar o abismo mesmo com medo de sucumbir nele. Olhar o deserto, olhar o abismo: as meninas, Marta e Stela, juntas, aprenderam a deixar vazar o silêncio das palavras. E tateiam esse silêncio para fazer jorrar dele um mundo de cerejas doces.

sábado, outubro 20

Água que se morre

Corro acima do leito escuro dessas águas de sábado. Pairo. Vejo o movimento insistente do curso dessa pequena tempestade. Um leito de rio, um tálamo, conjugando matérias sexuais. Aquelas que se excluem durante o movimento de aproximação. E são lançadas para fora, para a borda do círculo imaginado ao redor do movimento brusco. E se transcriam nesse atravessamento - uma expulsão -, nessa transversalidade. Um tálamo negro, com um cachorro do lado, observando a ida, a despedida infinita, brava, sonolenta. Para sempre adiada. Tempo. Tempo. Diluído na capa de água negra da madrugada. A direção aponta pro sudoeste, pra distâncias inavaliáveis. As águas, sobre as pedras, desarrumam os lençóis da insônia cativa, incutem um lodo verde-marrom nos travesseiros leiteiros. Uma mosca pousa na camada fina por cima da pele da água, e morre abocanhada por um abismo que se abre sobre essa calmaria absoluta. No umbigo da água, a explicação de tudo.

terça-feira, outubro 2

atenção. contém epifania

josé era seu suor na mão. seu piscar descontrolado, quase um tique nervoso. josé tomava whisky do quinto ao décimo dia útil e pinga no resto do mês. tinha filhos, teve duas esposas e muitas amantes. também teve uma mãe, que morreu no ano passado. atropelada na porta do hospital, numa quarta-feira nublada. devia ser agosto. josé era meio cego e não podia dirigir, andava de metrô todo dia e aproveitava o percurso de casa até o jornal para ler. hoje ele tinha dom quixote debaixo do braço. mas não o tirou de lá porque, logo a seu lado, um passageiro teve um ataque estranho. josé viu a morte saindo do olhar assustado do homem que levantava a mão para o alto e parecia vomitar A verdade em gaguejos intermináveis e ligeiramente amedrontadores. josé olhou pela janela e viu que a morte esperou até a próxima estação para descer e pôs-se a seguir uma jovem que carregava um bebê no colo. assim que a sombra estendeu seus longos braços e tocou o rosto do menino, o coração de josé parou _______________________ mas logo ecoou por todo o metrô uma gargalhada doce e inocente de criança, que se divertia como se brincasse com anjos. josé ergueu a sobrancelha, franziu a testa. entretanto, não se deteve na surpresa. deu logo firmes batidas em seu peito, tossiu algumas vezes e, uma vez recuperado, ajeitou o paletó. saiu do lado do epiléptico e foi em pé até sua estação . naquela segunda-feira, josé deu um real ao cantor da praça e pensou duas vezes antes de jogar um pedaço de papel no chão. acabou jogando assim mesmo, mas depois sentiu uma contorção no estômago que lembrava a sensação de arrependimento.
você nunca mais foi o mesmo daquele dia em diante, disse a josé uma louca cartomante, que, dez anos depois, hesitaria entre as duas histórias traçadas sobre o suor das mãos a sua frente: a vida qualquer de um grande homem e a grande vida de um homem qualquer.