sábado, maio 3

sir spleen won't be able to come

aprendemos a ler de um jeito peculiar, muito próprio. e por isso sei que quando escrevo uma carta, deveria anexar traduções, ou pelo menos grifar palavras e puxar notas de clareza pelos espaços que restam vazios. cada afirmação acaba pedindo um alerta para o que eu não queria dizer, mas de certa forma, acabei dizendo. é pouco confortável essa sensação de limites que nos escapam.

reza a lenda que um dia esse mal-estar passa e o costume vem. mas que quando ele vier, tornaremo-nos seres vãos e apáticos. se tivermos sorte, poderemos descansar em paz na bênção da ignorância, fazendo piqueniques no rio do esquecimento. a mesma lenda diz, porém, que se essas águas pararem seu curso, seremos atormentados por uma nostalgia muito forte do nosso antigo mal de vários nomes: fome. espera. dúvida.

você se lembra da escola em que fomos? lá se ensinavam definições que acabavam em reticências. nossas professoras tinham mundos muito grandes, sabe? e não nos escondiam deles. foi nessa época que nos mostraram que o etc. era, de longe, a maior parte de qualquer enumeração.

enfim, isso tudo era para dizer que achei rabiscos na capa do seu caderno que esqueceu aqui. e lendo-os, revelou-se me o erro no jeito de ler nossa palavra. e também no jeito de escrevê-la. sim, sei que deveria ter deixado o caderno onde ele estava. sei que não eram escritos para mim, mas não acreditava em segredos. eu violei.

mas entendi. é tudo muito certo e muito exato, ainda que em sua incerta e inexata medida possível. agora cada palavra é grande o suficiente para conter seu próprio fim. assim como eu, enfim, pude conter minha saciedade e meus limites. peço leves desculpas, não me lembro mais de seu rosto