sexta-feira, fevereiro 22

O reparo

Num radinho antigo, em volume quase inaudível, tocava qualquer música veiculada por uma emissora selecionada ao acaso. A voz do cantor, quase emudecida nas pequenas caixas de som, vinha de um canto escuro da sala, enquanto estava Augusto a engastar-se no conserto do liquidificador velho e embaçado de sujeira. A casa tão vazia quanto sua cabeça, esquecida das memórias que outrora tentara espantar. Augusto deixava rolar as horas da madrugada. Já passava de meia-noite e não sentia sono. Esquecido era mesmo a palavra mais exata para fazer referência a esse homem que, imbuído dessa tarefa ordinária, relevante para as donas-de-casa e os maridos menos abastados, atribuível ao dia-a-dia de um qualquer, esquecia-se quem era. Não cogitava até mesmo a importância de tal empreitada, uma vez que talvez mais fácil fosse comprar logo um aparelho novo e limpo e se livrar de vez daquelas miúdas peças. Pouparia trabalho e gastaria apenas uns trocados. Mas tal raciocínio era ignorado nesse instante. Augusto cumpria sua tarefa como um cego que anda em linha reta, firme, sem bengalas ou cão-guia, esquecido, inclusive, de sua própria cegueira. A destinação daqueles movimentos, do reparo daqueles objetos – rosca, parafusos, lâminas, motor –, pouco importava. Sem saber, aquilo o distraía de uma coisa chamada existência para que existisse sem a sua idéia. Tratava-se de uma solidão incredulamente perfeita, porque, ela também, não era a memória de si, nem expectativa de si, mas algo silenciosamente vivido num gole infinito e instantâneo. Não se tratava de rancores rememorados, tristeza, medo ou neuroses típicas da vida moderna, onde mergulham não raramente os homens celibatários contemporâneos. Augusto era apenas um homem que, numa madrugada quente, consertava, sozinho, o seu liquidificador.

terça-feira, fevereiro 19

(...)

"o amor e seu abutre o amor


entenebrece


de bile quando sede"



Haroldo de Campos - signantia. p. 75.

segunda-feira, fevereiro 11

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Usar apenas uma pequena parte do papel passa a ser o mais importante depois de algumas tentativas desajustadas. Mas, veja bem, isso não é um desperdício, é um gesto precioso e exato. Porque, se escrever tem algo de uma medida cirúrgica, a operação é minuciosa, caro leitor, minuciosa e fatal. Ou nunca desconfiou de que escrever é sempre uma fatalidade, mas uma fatalidade que nunca acontece, não é fato? A operação é vertiginosa, exige cuidado, porém, é preciso acrescentar, é irremediavelmente desastrosa. Porque a palavra é precária, a sintaxe é pouca. Tenta-se, inclusive, retirar, muitas vezes, o que resta dessa (insuficiente) sintaxe, afrouxá-la, enrijecê-la com outros nós, torcê-la a fim de que possa abrir o pensamento, tonificá-lo. O que resta dessa violência: quase nada. Trata-se, contudo, da velha e opaca imagem com que teima minha experiência: das ruínas, algo sempre está a erguer-se. Algo improfícuo? Talvez... Mas que nada se mantenha por muito tempo de pé. Porque os museus são tão cansativos, são intocados. A escrita, ao contrário, é movimento. Lembremos da delicada dança da ponta de uma caneta sobre o papel inteiramente branco, caligrafando... Delicada dança do sacrifício humano, de homem-letra que sussurra como um enfermo que sucumbe devagar e se afoga em segredo na própria doença. E docemente fecha os olhos para nunca mais abrir. Silenciosamente, estamos fechando os olhos para sempre. É nesse momento que se dobra a página e recoloca a caneta, deitada, num estojo antigo e retangular escondido no fundo da gaveta. Sabe como é, toda essa insistência – é sempre uma pretensão insistente – é vergonhosa. Se obedecêssemos sempre ao impulso primeiro e mais sensato de nossa consciência, lançaríamos, após concluídos, todos os textos ao lixo imediatamente e não restaria nada, absolutamente nada a que se ler. Entre uma coisa e outra, deixe, portanto, um risco melindroso, mas oblíquo, no canto da página, ao menos rubrique seu nome, mande uma carta em branco a algum desconhecido. Risque as pautas até a metade da folha, e angustie o leitor. Deixe que ele vislumbre o abismo em que se arrisca a palavra, e nós mesmos. Deixe que ele toque suas mãos trêmulas que suspendem, por instantes, as suas linhas tortas. E depois resignar-se, porque nada, nada se pode fazer.

segunda-feira, fevereiro 4

epifania n° 23

i'm SO sorry.

(é ligeiramente difícil tirar beleza disso)