quinta-feira, agosto 30

ainda não

pois bem, assim, enrola logo aquela memória em capa escura. esconde debaixo do tapete. sem carinho. ok. meio carinho ou um desleixar de cuidado medido. um toque delicado antes de virar as costas. e aí leve os dedos até a pele lisa e doce da outra face que te olha. diga assim: pode ficar. sente-se diante do outro, e não deixe que percebam que aquela entrega não passa de fuga disfarçada. não diga assim: eu me jogo em seus braços pra se livrar de mim e meus vazios. fica em silêncio que logo chega a desmemória. e o fim das fugas. e pára de rir dessa minha fala tonta e ingênua. diga logo amém e vai olhar como hoje o dia amanheceu fazendo cócegas.

segunda-feira, agosto 27

entre nada e nada, um rasgo. lance de vidas

- Não se trata de falar de qualquer coisa, mas de uma coisa qualquer, um conteúdo que me foge das mãos.

O absurdo, se retorna, retorna transformado.

Devolvo um pouco da minha saúde a ouvidos mancos.

Um instrumento de sopro no fundo da música, uma leveza de som, uma leveza de dor.

Uma coisa qualquer que transformo, transfiguro, perde a gravidade, não tem peso. É provisório, é caco de tempo, mas um espaço vasto.

Uma longa rua, uma estranha via. E fujo por ela, e foge-se por ela. A rua vazia, o assunto que some naquele horizonte intocado.

Visto pijamas nos dias quentes.

Hoje vi um autômato numa sala escura, vi um autômato louco.

domingo, agosto 26

De como José se tornou um tributável

Voltara, então, a enxergar. Depois daquele dia, sua vida foi, até o último segundo, normal. Exatamente normal, exemplarmente normal. E José, em segredo pouco disfarçado, ostentava sua normalidade como modesta superioridade em relação aos outros ... seres humanos ... que ... debatiam-se, caíam e, seu estômago revirava-se em pensar como eles, os seres humanos, rastejavam-se pelo chão em busca de seus sonhos. José não sonhava, fazia planos. E alcançava-os todos. Era uma simples questão de método. Assim como conseguira seu bom emprego, tivera dois filhos saudáveis, ambos com futuro promissor, notas boas na escola, bonitos e inteligentes... mas não muito, ainda bem! Eram espertos o suficiente para terem um trabalho digno, e além do que... ora, o plano de previdência e o seguro de vida já eram garantia de segurança financeira para os meninos quando José não estivesse mais entre eles. Ah, e havia Ana, com quem casara-se dois anos depois que .... dois anos depois que ...... voltara a enxergar. Ana não era bonita, nem feia. Era da medida certa. Assim como tudo na vida de José. Nem mais, nem menos, as coisas só precisavam ser suficientes. Era um homem raso, mas correto. Nunca cometera um crime, nunca avançara o sinal de trânsito e nem mesmo ultrapassara os limites de velocidade. Era competente e sentia um pequeno orgulho de si quando se dava com sua imagem no retrovisor do carro. Mas sempre desviava os olhos, com medo de que aquela ligeira satisfação se transformasse em vaidade. Ou dúvida. José era um homem milimetricamente médio. Tais fraquezas só serviriam para tirar-lhe a valiosa medida exata de seu mundo, sem a qual estaria ...... perdido?

quinta-feira, agosto 23

de como maria se tornou invisível

primeiro, foi-se o brilho. em seguida, a intensidade das cores. logo partiram as próprias cores. até que um dia, finalmente, despediram-se, altivas e apressadas, as sombras.


foi aí que josé esfregou os olhos e voltou a enxergar.

segunda-feira, agosto 13

nesse solo quase discursivo - narrações

às mulheres obscenas


O que é esse torpor de insensatez?
Essa desmedida que se assenta por fora
E entra.
Negando o absurdo, reafirmo-o.
Inscrevo-o pelos lábios, pelos dedos.
Absurdo é negá-lo.
Porque loucura não é desatino,
É descolar, dar braçadas no ar,
Afogar no sentido, inscrever-se no silêncio.
A mudez rica de nadas cuja significância
Assola o olhar e rouba imagens do dia.

Polarizo os excessos
Para melhor confundi-los.
Aqueço as mãos com os pés
No mundo fictício do fogo,
No escândalo permanente
Que se inicia com o fim do sono.
Os pequenos abismos revelam
A sólida penumbra da incoerência,
A primitiva força que lateja
Ainda em segredo.

Procuro a vertigem.
Não, meu querido, não tenho tendências suicidas.
Mas gozo de torpor.
Gozo com o desequilíbrio,
Com a violência na minha saliva
Refratando o que me ameaça.

Corto os dedos pra não perdê-los.

Refaço meu corpo.

É o texto que diz.

Minha lei é teia
Nela caia o sujeito que sabe cair
E se entrega ao sabor suicida do aniquilamento suspenso.
A ficção que convença pelos seus fios
De armadilha boa.
Ocorre-me o mar,
Meu fascínio pela majestade infinita
Do mar oceânico.
Fascina-me o tamanho grande das coisas
E mesmo o tamanho grande das coisas pequenas
Dos átomos insuspeitados e seu universo constelar,
Carregando Galáxias.

Por ora, no entanto, não é isso que interessa.
Vamos ao apagamento silencioso que
Deixa constrangida a absurda normalidade
Das coisas médias:

um abandono.

A vertigem dos dias continua
Aquele fino desejo de truncar a ordem
Fazer irromper o caos contido nos objetos.
Fazer pular o motivo do engasgo
E encerrar a gagueira.
Pra sempre.

terça-feira, agosto 7

sobre o amor pela janela

"Quand nous sommes très forts, - qui récule ? très gais, - qui tombe du ridicule ? quand nous sommes trés méchants, - que ferait on de nous ?
Parez-vous, dansez, riez, je ne pourrais jamais envoyer l’Amour par la fenêtre."


arthur rimbaud.


quando somos muito fortes, - quem recua? muito alegres, - quem cai do ridículo? quando somos muito malvados, - o que se fará de nós?
enfeitai-vos, dançai, ride, eu não poderia nunca atirar o Amor pela janela.