um dia disseram-me que era só imaginar os olhos que se deitam sobre as palavras que escrevo. eu tentei. e foi aí que percebi o potencial de brilho que existia em minhas vísceras, mas que só se podiam ver em seus olhos. bem sei que sangue, estômago e dor são idéias sujas, mas eu não posso fingir-me indiferente: elas estão lá e se misturam a minha fala a cada vez que tento alcançar o que me faz escrever - o amor, como também disseram-me. e continuaram: era então o amor que nos fazia confidentes das letras, reféns dessa força que nos faz aspirantes à qualquer forma de entrega, redenção. ou arte.
você sabe, às vezes, tudo isso realmente me aparece como uma possível revanche. o sucesso no fracasso, o ponto de fuga. uma reescrita da vida, dos passos, dos caminhos e, principalmente, das pessoas. é infantil, naïve e óbvio. é patético, mas, além da diversão, do prazer e das frustrações, a cada vez que deito-me em palavras, o faço por uma vontade de recriar. e me recriar diante desses olhos que me lêem, os seus.
e então, como eu dizia, aprendi a imaginar olhos. e os fiz à imagem de pequenos anjos. aprendi desde pequena que rezar é aconchego porque é um estado potencialmente belo de não-solidão. lembro-me de uma manhã em que me inquietei em saber se deus me ouvia. não cheguei a me perguntar sobre sua existência. percebi que a história de "existir" era tão complexa quanto irrevelante, e decidi: se deus não existir, eu invento um. talvez houvesse um pequeno medo nessa determinação infantil, mas só agora vejo quão pretensiosa era aquela minha ingenuidade, que acreditava possível inventar deuses, assim, simples como rabisco no bloco de recados ao lado do telefone.
é... acho que agora me esqueci um pouco de deus, e me dedico ao passatempo vital de inventar olhos-anjos. até que isso também se revele uma pretensão ingênua
segunda-feira, julho 30
domingo, julho 29
6 - "escrevo profundamente por querer falar"
Acho que aos poucos vou ganhando esperteza. Vou aprendendo a contornar as palavras com cuidado, sem acordar o sono infinito que as envolve. Contorno a silhueta das palavras com a pontinha dos dedos e faço outras - novas - com barro, silêncio e espaços vazios. Depois, faço-as dormir o sono de morte. Cerro-lhes os olhos como quem beija um filho. Cerro os olhos das palavras e me despeço da sua luz vazia.
Desejo que essas linhas componham a geografia insuspeitada de um sujeito sem marcas, que perdeu as suas palavras. Vou tentar dizer um lugar. Com a minha língua vazia vou, só com o que é de agora, deixando vazar nesse espaço uma vida de papel, que não é para ser vivida, é extasiante e fina.
Colho os espinhos para eles deixarem de ser rosa.
Ter uma existência menos oblíqua não define a minha escrita.
Espeto meus dedos nessa experiência, quase os perco.
Eu leio, não escrevo mais. Aqui me acomodo com grande dificuldade.
A linha é sempre ambígua, como tudo que não tem conteúdo: é o próprio conteúdo. Linha, pedra, palavra.
Essa escrita não tem ossos, nem articulação. É venosa, capilar, final.
Desejo que essas linhas componham a geografia insuspeitada de um sujeito sem marcas, que perdeu as suas palavras. Vou tentar dizer um lugar. Com a minha língua vazia vou, só com o que é de agora, deixando vazar nesse espaço uma vida de papel, que não é para ser vivida, é extasiante e fina.
Colho os espinhos para eles deixarem de ser rosa.
Ter uma existência menos oblíqua não define a minha escrita.
Espeto meus dedos nessa experiência, quase os perco.
Eu leio, não escrevo mais. Aqui me acomodo com grande dificuldade.
A linha é sempre ambígua, como tudo que não tem conteúdo: é o próprio conteúdo. Linha, pedra, palavra.
Essa escrita não tem ossos, nem articulação. É venosa, capilar, final.
quarta-feira, julho 25
pão-duragem
"Sentado ao seu lado na cama, enquanto a luz se esvaía e a voz firme de Miss Burden ia perdendo o seu caráter próprio (...) Christmas pensava: é como todas as outras. Tenham dezessete ou quarenta e sete anos, quando chega o momento de se entregarem de todo, o fazem com palavras."
aff.
aff.
segunda-feira, julho 16
Este texto são linhas se quebrando antes de se tecerem
Tornou-se preciso dividir a caligrafia de um significante. E depois cortá-lo ao meio com um arame fino. Com um arame fino, separar as letras, pintá-las de vermelho.
Aos ausentes.
2- Você, senhor, acorda os livres ramos de tecido que cobrem meu corpo. Desperta essa malha viva e morta que visto quando me dispo. Alegro-me rapidamente com os fios repulsivos da minha quase memória adoecida, chamada pela violência da fala. É a pena que me ocorre, a que não tem peso, tem textura. E é óbvio: é áspera. Pego a pena, traço-a sem desenhá-la nesse papel que sabe devolver um medo que é meu, a torta dor da menina que dorme no quarto ao lado.
Mas eu quero perder a consciência e a memória. A noite escura me chama, e, porque há o medo, minha resposta afirma meu fascínio, ainda que eu não diga um “sim”. O fato é que eu vou ficando cega e, por recusar o dia, procuro nessa cegueira um ponto de desconhecido que me leve a outro lugar onde eu não esteja, onde permaneça apenas meu corpo cintilando entre outros corpos sem voz.
A noite. A claridade da noite escura, amparando a luminosidade própria das coisas. Os efeitos da voz e das mãos. É a abertura do corpo (e) da escrita – sua boca e seus dedos -, é um modo de gesticular que engendra dentro e fora - sua boca e seus dedos -, que vai cerzindo as superfícies do mundo e das palavras e deixa restos de sentido - sua boca e seus dedos -, até construir significantes de beleza nova: sua boca, seus dedos. E, então, começar tudo de novo.
3 – porque estivemos sempre no palco.
Eu olhava por entre as grades enquanto você dançava com a saia mal presa nos dedos e os olhos quase detidos nele. Eu estava ali e você também, mas te olhar era como atravessar um mundo. Era violento e triste.
4 - Eu devia ter escrito pra ela que estar à beira não significa nada. Falar da borda é falar de lugar nenhum, ainda que se comunique alguma coisa. Saí do casulo e agora me arrasto no fino limite que separa os mundos. Tudo muito perigoso, eu sei. Nada escrito no meu corpo, esse papel em branco.
Eu devia ter dito a ela que ando tapando os ouvidos e cegando meus olhos. Que o casulo me expulsou pro inferno, pros dias infernais em que a ausência vai me engolindo rapidamente e eu desapareço, rouca, nas mãos de Deus, esse outro papel em branco.
2- Você, senhor, acorda os livres ramos de tecido que cobrem meu corpo. Desperta essa malha viva e morta que visto quando me dispo. Alegro-me rapidamente com os fios repulsivos da minha quase memória adoecida, chamada pela violência da fala. É a pena que me ocorre, a que não tem peso, tem textura. E é óbvio: é áspera. Pego a pena, traço-a sem desenhá-la nesse papel que sabe devolver um medo que é meu, a torta dor da menina que dorme no quarto ao lado.
Mas eu quero perder a consciência e a memória. A noite escura me chama, e, porque há o medo, minha resposta afirma meu fascínio, ainda que eu não diga um “sim”. O fato é que eu vou ficando cega e, por recusar o dia, procuro nessa cegueira um ponto de desconhecido que me leve a outro lugar onde eu não esteja, onde permaneça apenas meu corpo cintilando entre outros corpos sem voz.
A noite. A claridade da noite escura, amparando a luminosidade própria das coisas. Os efeitos da voz e das mãos. É a abertura do corpo (e) da escrita – sua boca e seus dedos -, é um modo de gesticular que engendra dentro e fora - sua boca e seus dedos -, que vai cerzindo as superfícies do mundo e das palavras e deixa restos de sentido - sua boca e seus dedos -, até construir significantes de beleza nova: sua boca, seus dedos. E, então, começar tudo de novo.
3 – porque estivemos sempre no palco.
Eu olhava por entre as grades enquanto você dançava com a saia mal presa nos dedos e os olhos quase detidos nele. Eu estava ali e você também, mas te olhar era como atravessar um mundo. Era violento e triste.
4 - Eu devia ter escrito pra ela que estar à beira não significa nada. Falar da borda é falar de lugar nenhum, ainda que se comunique alguma coisa. Saí do casulo e agora me arrasto no fino limite que separa os mundos. Tudo muito perigoso, eu sei. Nada escrito no meu corpo, esse papel em branco.
Eu devia ter dito a ela que ando tapando os ouvidos e cegando meus olhos. Que o casulo me expulsou pro inferno, pros dias infernais em que a ausência vai me engolindo rapidamente e eu desapareço, rouca, nas mãos de Deus, esse outro papel em branco.
domingo, julho 15
atirado pela janela
e as palavras voltariam a brotar da ferrugem nos dedos, da calma do silêncio e do vento no rosto. porque o amor, simplesmente não se pode calar. mesmo que acene adeus na queda livre que percorre rumo ao que se mostra tão real quanto inalcançável: seu fim.
o restante possível
Porque só posso falar de mim, somos aqui de novo, mais longe e mais perto. Feito fumaça. Um vapor sem temperatura. Nessa nossa ressaca inevitável de tudo o que já passou. Um resto de embriaguez que aqui se revela. Um tanto de fingimento sincero. E vice-versa. Contra-senso. Teimosia. Teimosia, acima de tudo.
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