segunda-feira, dezembro 24

para não parar

Estar a criar palavras rasteiras, baixissimamente. Ela, dona da sua perdição, caminha, descalça, entre pedregulhos maciços. Ruína é tudo o que se pode ser. Estar a criar palavras rasteiras, baixissimamente. Descer. Deixar-se reduzir ao que é mais irredutível, um pulso. Minorar o excesso numa pele pálida e impassível.

Assusto-me com essa dupla morte, revejo se vive. Ela, neste instante, encolhe-se, e acerto: trata-se de uma vida retida na morte, miudamente. Estava a criar palavras rasteiras, baixissimamente.

terça-feira, dezembro 11

a repartição dos pães

a fome saciada em pratos brancos e limpos sobre a mesa. na sala de jantar, toalhas claras, janelas abertas, luz suave.
havia prazer ao se aproximar o que se unia pelo vazio opostamente manifesto - oferta e desejo - à semelhança de abismos que deparavam com seus respectivos avessos.

talvez fosse a fome, a falta, e, quem sabe, também os olhos que tudo viam e tudo ostentavam.
disseram ter sido a espera pela espera que, nela própria, se bastava. talvez fosse mero nada disfarçado em encontro. mas os disfarces

terça-feira, dezembro 4

era docinha a cola ativada à saliva no envelope escrito à caneta-tinteiro. não era?

da carta aberta sobre a cama, vinha um mundo inteiro. da letra que passara de familiar a indecifrável, saíam rostos palpáveis, os domingos chuvosos, a tv e os gatos no quintal. nada de novo no longe de sempre. saudade, desejos e regrets incontidos na fala, extravasando pelas linhas desenhadas sobre o papel.
da carta aberta sobre a cama, escapava um mundo novo - aquele a que se aspirava, e saíam pessoas e seus sons, o medo, o cansaço. estava ali cada fio de cabelo, cada floco da neve rala que caía sobre a pele. estavam as folhas secas, o vento frio, a natureza morta.
era como se o quarto e as vidas se tornassem infinitos e insuficientes ao mesmo tempo. era como não caber naquele momento em que se espremiam vozes, rostos e faltas: o abismo atlântico que une em silêncio os traços que falam aos olhos que lêem.

sábado, novembro 24

a reza, a benção, a hora

e seria bom se teus olhos me alcançassem com calma e que você se sentasse na varanda e me ouvisse. mãe. tu e outras. tu e tantas. tantas e únicas.

seria bom se em minhas mãos já não tão limpas houvesse flores. uma tulipa, um vaso, um presente. eu me assento sob o suave enquadramento de tuas vistas cansadas e a fala, também suave, torna-se música. seria bom se cantássemos.

e há a garganta, mãe. os golfos de silêncio e, digo-te mais, há também abismos. eu me sentava no alto de montanhas e sentia frio. minhas mãos suavam, eu tirava fotos e chorava baixo. mãe, entenda, era uma alegria violenta e doce, timidamente histérica. só eu ouvia meus gritos de êxtase.

e mãe, eu não sei. juro-te que não sei e ponho panos mornos sobre o desespero de às vezes estar assim, tão perdida. escondo-me. porque há tanto ... tanto que já não é como antes. e mesmo que sempre tenha sabido da inconsistência e inconstância das pessoas e dos rostos que lhes damos, ainda assim, mãe, eu nunca pensei que os traços de minha face no espelho também fugiriam ao controle de minhas mãos.

mas você me olha da varanda com a intensidade do que é divino e exato. e o pai também se senta à mesa e, veja!, ele nem se preocupa em espantar os cachorros que se aproximam. as meninas vêm por último, elas trazem mais flores, e agora somos todos.

mãe, tenho medo. peça para que tirem logo essa foto. preciso respirar, tocar-te o rosto, sentar-me junto de vocês. preciso sentar-me e descansar. junto de vocês.

domingo, novembro 18

aquele em que troppman, pretensioso e arrogante, desafia a nudez e tira suas meias velhas

se era preciso fugir do óbvio, respirar pelo avesso, inverter, subverter, reverter, se tudo isso era preciso, com licença, dois segundos, vou ali resgatar minha inconsistência mental e a desordem natural dos fantasmas que guardo. quer? quer então que abra aqui a caixa de pandora e me entregue ao imperativo da escrita que, tal qual a loucura, se faz de liberdade plena e pleno perigo. e se te disser do medo e do impossível, e se eu te disser das mãos maculadas, das máculas santas, da santidade pagã e do semper eadem em que nos mergulhamos, cegos e desesperados, incapazes de sustentarmo-nos enquanto aquilo a que aspiramos ser? subestimamos o peso. superestimamos a fraqueza. hoje eu vou rasgar livros e gritar pelas ruas. escrever em voz alta a essência e o segredo deste absurdo que, ainda que sufoque, nunca emudece.

e a pele desonesta era veludo, água, poeira e vento

e no copo que você colocou sobre a mesa, com a marca dos dedos sujos, ficou o resto do beijo. e na rua por onde arrastou seus pés, ficou um pouco dos passos.
e claro que havia o céu e o desejo nas veias. além de toda a beleza que podia ser, mas simples e inexplicavelmente, não era pra você. porque os olhos a sua frente não te olharam uma única vez sequer.
naquela noite, você dormiu como um anjo exausto. no corpo, ainda um pouco de êxtase sobrevivia, como os ecos da música mais bonita que já tocara seus ouvidos.
e ao acordar, suas mãos estariam sobre os ouvidos, tentando proteger o som distante que ainda persistia, porém cada vez mais fraco.
na verdade, eu só queria te pedir pra não se assustar com o silêncio quando a falsa melodia morrer: agora.

sexta-feira, outubro 26

o par de escritas: 2

Para Sue, a amiga que deixa caber o infinito

Stela, lembro bem dela, era uma menina quieta, falante, mas de uma falância muda, se é que se pode dizer assim. Marta tinha os dedos sempre cruzados debaixo da blusa, confiava num acaso promissor, um horizonte paradisíaco aonde chegaria apenas se acreditasse nele. Nunca vi olhos tão luminosos em minha vida. Não me lembro mais como se encontraram pela primeira vez. Sei, no entanto, que o tal encontro despertou nelas uma falância diversa, mas também muda, que desde então não cessaria. Escreviam cartas uma a outra, quase diariamente, para o estranhamento de todos, dada a proximidade de suas casas. Encontravam-se rotineiramente e conversavam de modo distraído e alegre como fazem todas as amigas, mas isso não bastava. Precisavam escrever, e era na escrita que impunham uma gravidade na voz, um tom subterrâneo para tocar os assuntos do mundo.

Mal sabiam, entretanto, que interessava menos os assuntos do que o próprio tom, aquele canto caligrafado, cifrado, quase. Escreviam sem motivo, como num vício. Era um puro estremecimento, um modo de deixar os acontecimentos suspensos, os pêlos hirtos. As pessoas viam aquela troca de envelopes meio amassados com os olhos enviesados, a eles pareciam cartas de amor.

As letras eram mesmo tóxicas, sabiam. A palavra tinha o peso de uma pedra dura e aquelas meninas jogavam essas pedras uma a outra com o cuidado de quem experimenta um escândalo. Trocavam, escandalosamente, palavras em estado de choque. Criaram um espaço onde podiam deixar passar o extraordinário, que ficava, antes, retido nos olhos. Mal entendiam o que liam, porque descomunicavam o mundo. Certa vez, Marta passara um longo tempo num país longe e frio. Stela ficara aqui, imaginando que a amiga, morando numa casa que mais parecia um castelo, era rodeada por um longo gramado uniformemente plano. Parecia um deserto sem areia, muito verde. Talvez porque era assim a solidão que Marta sempre sentiu, feita de um deserto úmido. Stela dizia que a solidão de Marta era bonita de olhar, era imensa, mas doce, uma paisagem, uma pintura.

Com a distância, as cartas podiam ser trocadas mais à vontade. Marta escrevia várias e Stela as recebia com o coração meio aos pulos, sentir-se o destino daquela escrita era como ter permissão para entrar naquele deserto úmido e olhar o quanto quisesse aquela imagem fascinante e vertiginosa. Mas agora as cartas que recebia, além do canto, traziam um mundo distante, um impulso pra fantasia pueril de Stela, que continuava, na sua falância muda, a falar sobre nada. Agora, era diferente, as cartas eram de viajante, e tinham um cheiro de cereja rosa, cheiro que Stela jamais experimentara.

Marta voltou daquele país frio e ainda hoje, já adulta, escreve a Stela. Talvez mesmo vizinhas sempre vivessem em países distantes, talvez nunca duas pessoas tivessem sido tão próximas. Escrevem, ainda hoje, cartas sem conteúdo. É um modo de convocar uma abertura no chão e vislumbrar o abismo mesmo com medo de sucumbir nele. Olhar o deserto, olhar o abismo: as meninas, Marta e Stela, juntas, aprenderam a deixar vazar o silêncio das palavras. E tateiam esse silêncio para fazer jorrar dele um mundo de cerejas doces.

sábado, outubro 20

Água que se morre

Corro acima do leito escuro dessas águas de sábado. Pairo. Vejo o movimento insistente do curso dessa pequena tempestade. Um leito de rio, um tálamo, conjugando matérias sexuais. Aquelas que se excluem durante o movimento de aproximação. E são lançadas para fora, para a borda do círculo imaginado ao redor do movimento brusco. E se transcriam nesse atravessamento - uma expulsão -, nessa transversalidade. Um tálamo negro, com um cachorro do lado, observando a ida, a despedida infinita, brava, sonolenta. Para sempre adiada. Tempo. Tempo. Diluído na capa de água negra da madrugada. A direção aponta pro sudoeste, pra distâncias inavaliáveis. As águas, sobre as pedras, desarrumam os lençóis da insônia cativa, incutem um lodo verde-marrom nos travesseiros leiteiros. Uma mosca pousa na camada fina por cima da pele da água, e morre abocanhada por um abismo que se abre sobre essa calmaria absoluta. No umbigo da água, a explicação de tudo.

terça-feira, outubro 2

atenção. contém epifania

josé era seu suor na mão. seu piscar descontrolado, quase um tique nervoso. josé tomava whisky do quinto ao décimo dia útil e pinga no resto do mês. tinha filhos, teve duas esposas e muitas amantes. também teve uma mãe, que morreu no ano passado. atropelada na porta do hospital, numa quarta-feira nublada. devia ser agosto. josé era meio cego e não podia dirigir, andava de metrô todo dia e aproveitava o percurso de casa até o jornal para ler. hoje ele tinha dom quixote debaixo do braço. mas não o tirou de lá porque, logo a seu lado, um passageiro teve um ataque estranho. josé viu a morte saindo do olhar assustado do homem que levantava a mão para o alto e parecia vomitar A verdade em gaguejos intermináveis e ligeiramente amedrontadores. josé olhou pela janela e viu que a morte esperou até a próxima estação para descer e pôs-se a seguir uma jovem que carregava um bebê no colo. assim que a sombra estendeu seus longos braços e tocou o rosto do menino, o coração de josé parou _______________________ mas logo ecoou por todo o metrô uma gargalhada doce e inocente de criança, que se divertia como se brincasse com anjos. josé ergueu a sobrancelha, franziu a testa. entretanto, não se deteve na surpresa. deu logo firmes batidas em seu peito, tossiu algumas vezes e, uma vez recuperado, ajeitou o paletó. saiu do lado do epiléptico e foi em pé até sua estação . naquela segunda-feira, josé deu um real ao cantor da praça e pensou duas vezes antes de jogar um pedaço de papel no chão. acabou jogando assim mesmo, mas depois sentiu uma contorção no estômago que lembrava a sensação de arrependimento.
você nunca mais foi o mesmo daquele dia em diante, disse a josé uma louca cartomante, que, dez anos depois, hesitaria entre as duas histórias traçadas sobre o suor das mãos a sua frente: a vida qualquer de um grande homem e a grande vida de um homem qualquer.

quarta-feira, setembro 26

O marido

Com um sorriso doce nos lábios, a mulher, ao ouvir seu nome, entrou na sala clara.
_ Doutora, esses machucados são novos, mas são os mesmos de antes, e não se preocupe: doem tão pouco. Essa casca que dá por cima aqui, ta vendo? Olha! Essa casca faz sarar.
_ Mas foi ele de novo? É preciso que ele seja denunciado, abandonado, senhora.
_ Não, doutora, você não entende, você não é casada? Ele me bate porque gosta muito de mim. Gosta tanto que esse sentimento parece que não cabe mais dentro dele, como o meu cabe em mim. Não é ele, mas a paixão que é agressiva, doutora, ele me bate porque não suporta me ver triste. Então, veja bem, ele quer bater na dor, na dor que eu sinto, e não em mim. É por preservação, sabe doutora? Ele nunca suportou me ver chorando, e então ele me bate, mas dói mais nele, tenha certeza. A dor maior é dele, porque não pode ser o continente do próprio amor, que vaza, feito uma vasilha furada.
_ Mas as feridas, a cada vinda sua, estão piorando, ficando mais graves.
_ É porque nossa relação está cada vez melhor, mais próxima, mais intensa. Não olhe com essa cara, eu não estou louca. Estou apenas me abrindo com a senhora, porque não há com o que se preocupar. Ele é um homem sensível, doutora, e eu acho isso muito bonito nos homens, porque é raro ver homens que choram e amam assim. Já contei que o que ele mais gosta na vida são dos filmes cantados, aqueles musicais que ele assiste muito concentrado, várias vezes, decora as canções, canta elas no meio do filme, e no fim, chora tanto que é de doer o peito. Nesses dias, é como se ele perdesse um parente próximo, de tão choroso que é o choro. Eu não tenho muita paciência com esses filmes não, eu durmo no meio e ele se chateia com isso. Mas é que não sou como ele, tenho a alma rasa, cotidiana, como ele me disse certa vez, com uma cara assustada.
_ Estou tentando entender.
_ Então. As vezes que fico um pouco triste ou que pareço esquecida dele, ele fica muito nervoso, vira um bicho, quer arrancar essa estranheza de mim. E me bate e grita muito. Uma vizinha me disse que isso é coisa de possessão, que ele precisa mesmo é de tomar uns passes. Mas as pessoas acreditam muito no demônio e pouco no amor. Mas, de todo jeito, rezo pra ele. Rezo pra que esse amor doa menos nele. Eu, por mim, estou bem, tenho admiração. Ele me bate porque é um santo.

sábado, setembro 15

Farmácia

São de descaminhos que falo. E por que sempre dizer tu, se isso é mera e vazia construção de linguagem, uma língua resistente? Não sei se algum dia falei de alguma coisa que não fosse paixão. Sei, no entanto, que algo se mantém por um movimento entre paisagens tóxicas, verbais. Não é isso, era a resposta final. Não era isso o que esse tu, que não sei mais quem é, vislumbrou para um futuro que se dissolveu antes de existir. E por que resisto? Apalpo esse tu invisível, como num diálogo com deuses de um eu ateu. Uma conversa fracassada, inócua, fascinada. Mas continuo dizendo, apesar disso, a partir disso, da paixão que sustenta e aniquila esta vida que aqui passa. Emigro, as palavras andam cada vez mais escassas. Retiro meus olhos mas não consigo parar de ver. Sei que é triste e só este trabalho, que não tem fim. E é feito de pedaços de um corpo que não pode mais ser ajuntado. Faço monstruosidades descontínuas, e muito primárias. São tudo e nada, são buracos. Talvez covas de tratar a morte, vales onde se cose o esquecimento. Isso tudo é papel rasgado e errância indigente. E tu aí, deste outro lado. Não sei quem desapareceu com mais velocidade nesse jogo de acenos eternos, de gestos perdidos. Porque é tudo matéria de perdição, é cacoete, se repete. E não paro de escrever-te cartas que não têm endereço. Quem sabe um dia cantá-las? Lanço-as como os cigarros já fumados, como as palavras que perderam o conteúdo. Lanço ao rio sem margem de vertiginosas águas sujas que tudo engole. Turvas de vermelho como a minha língua louca, apaixonada.

segunda-feira, setembro 3

é preciso encenar até sumir

Longos espaços de silêncio.
Parece que corro atrás do fio que perdi ao tentar retomar o fôlego.
Longo tempo esvaziando.
E nunca fui à bela Espanha dos meus sonhos, tão tumultuada nos meus pensamentos.
E à poente Inglaterra, tão grande em sua pequenez.
Mas o silêncio é grande e, se me deixo levar por ele, esqueço tudo, entranho-me em sua substância branca.
Lembro dos paços leves no corredor, em volta da porta.
São duros, certeiros, de quem não oferece clemência, nem sorte.
Mas continuo indo, e nem sei porquê.
Acho que vivo melhor assim, tendo que amarrar meus silêncios sob um esforço que me tira o ar.
E nem sempre consigo. Mas obrigo-me.
Pago por isso.
E tenho tanto medo.
Se parei de rezar, ainda sim tenho medo, e ainda digo, de dentro da minha descrença, meu deus, olhe por mim.
Respiro muito fundo, a doença me consome.
Cada palavra dita carrega, me parece, a morte de si mesma.
E morro com ela, cada vez mais ofegante, como quem acaba de nascer.
Ás vezes o pensamento sai como um jato, como se estivesse pronto.
Assusto tanto nessas horas, minha boca assume outra voz até encarar a próxima mudez.
Encaro o terror dessa experiência, esfrego as mãos mas não sinto frio.
Só ventila o que desorganiza, eu penso.
Aqueço-me, de alguma forma, na voz fria que vem do canto da sala escura.
Ela fala de mim, eu sei.
O que está fora do meu corpo, me parece muito íntimo, e não estou louca.
Toco o meu rosto, prendo uma mão na outra, procuro algum relevo, alguma ponta em que me agarrar.
Mas caio vertiginosamente, meus olhos muito abertos numa noite absolutamente clara.

quinta-feira, agosto 30

ainda não

pois bem, assim, enrola logo aquela memória em capa escura. esconde debaixo do tapete. sem carinho. ok. meio carinho ou um desleixar de cuidado medido. um toque delicado antes de virar as costas. e aí leve os dedos até a pele lisa e doce da outra face que te olha. diga assim: pode ficar. sente-se diante do outro, e não deixe que percebam que aquela entrega não passa de fuga disfarçada. não diga assim: eu me jogo em seus braços pra se livrar de mim e meus vazios. fica em silêncio que logo chega a desmemória. e o fim das fugas. e pára de rir dessa minha fala tonta e ingênua. diga logo amém e vai olhar como hoje o dia amanheceu fazendo cócegas.

segunda-feira, agosto 27

entre nada e nada, um rasgo. lance de vidas

- Não se trata de falar de qualquer coisa, mas de uma coisa qualquer, um conteúdo que me foge das mãos.

O absurdo, se retorna, retorna transformado.

Devolvo um pouco da minha saúde a ouvidos mancos.

Um instrumento de sopro no fundo da música, uma leveza de som, uma leveza de dor.

Uma coisa qualquer que transformo, transfiguro, perde a gravidade, não tem peso. É provisório, é caco de tempo, mas um espaço vasto.

Uma longa rua, uma estranha via. E fujo por ela, e foge-se por ela. A rua vazia, o assunto que some naquele horizonte intocado.

Visto pijamas nos dias quentes.

Hoje vi um autômato numa sala escura, vi um autômato louco.

domingo, agosto 26

De como José se tornou um tributável

Voltara, então, a enxergar. Depois daquele dia, sua vida foi, até o último segundo, normal. Exatamente normal, exemplarmente normal. E José, em segredo pouco disfarçado, ostentava sua normalidade como modesta superioridade em relação aos outros ... seres humanos ... que ... debatiam-se, caíam e, seu estômago revirava-se em pensar como eles, os seres humanos, rastejavam-se pelo chão em busca de seus sonhos. José não sonhava, fazia planos. E alcançava-os todos. Era uma simples questão de método. Assim como conseguira seu bom emprego, tivera dois filhos saudáveis, ambos com futuro promissor, notas boas na escola, bonitos e inteligentes... mas não muito, ainda bem! Eram espertos o suficiente para terem um trabalho digno, e além do que... ora, o plano de previdência e o seguro de vida já eram garantia de segurança financeira para os meninos quando José não estivesse mais entre eles. Ah, e havia Ana, com quem casara-se dois anos depois que .... dois anos depois que ...... voltara a enxergar. Ana não era bonita, nem feia. Era da medida certa. Assim como tudo na vida de José. Nem mais, nem menos, as coisas só precisavam ser suficientes. Era um homem raso, mas correto. Nunca cometera um crime, nunca avançara o sinal de trânsito e nem mesmo ultrapassara os limites de velocidade. Era competente e sentia um pequeno orgulho de si quando se dava com sua imagem no retrovisor do carro. Mas sempre desviava os olhos, com medo de que aquela ligeira satisfação se transformasse em vaidade. Ou dúvida. José era um homem milimetricamente médio. Tais fraquezas só serviriam para tirar-lhe a valiosa medida exata de seu mundo, sem a qual estaria ...... perdido?

quinta-feira, agosto 23

de como maria se tornou invisível

primeiro, foi-se o brilho. em seguida, a intensidade das cores. logo partiram as próprias cores. até que um dia, finalmente, despediram-se, altivas e apressadas, as sombras.


foi aí que josé esfregou os olhos e voltou a enxergar.

segunda-feira, agosto 13

nesse solo quase discursivo - narrações

às mulheres obscenas


O que é esse torpor de insensatez?
Essa desmedida que se assenta por fora
E entra.
Negando o absurdo, reafirmo-o.
Inscrevo-o pelos lábios, pelos dedos.
Absurdo é negá-lo.
Porque loucura não é desatino,
É descolar, dar braçadas no ar,
Afogar no sentido, inscrever-se no silêncio.
A mudez rica de nadas cuja significância
Assola o olhar e rouba imagens do dia.

Polarizo os excessos
Para melhor confundi-los.
Aqueço as mãos com os pés
No mundo fictício do fogo,
No escândalo permanente
Que se inicia com o fim do sono.
Os pequenos abismos revelam
A sólida penumbra da incoerência,
A primitiva força que lateja
Ainda em segredo.

Procuro a vertigem.
Não, meu querido, não tenho tendências suicidas.
Mas gozo de torpor.
Gozo com o desequilíbrio,
Com a violência na minha saliva
Refratando o que me ameaça.

Corto os dedos pra não perdê-los.

Refaço meu corpo.

É o texto que diz.

Minha lei é teia
Nela caia o sujeito que sabe cair
E se entrega ao sabor suicida do aniquilamento suspenso.
A ficção que convença pelos seus fios
De armadilha boa.
Ocorre-me o mar,
Meu fascínio pela majestade infinita
Do mar oceânico.
Fascina-me o tamanho grande das coisas
E mesmo o tamanho grande das coisas pequenas
Dos átomos insuspeitados e seu universo constelar,
Carregando Galáxias.

Por ora, no entanto, não é isso que interessa.
Vamos ao apagamento silencioso que
Deixa constrangida a absurda normalidade
Das coisas médias:

um abandono.

A vertigem dos dias continua
Aquele fino desejo de truncar a ordem
Fazer irromper o caos contido nos objetos.
Fazer pular o motivo do engasgo
E encerrar a gagueira.
Pra sempre.

terça-feira, agosto 7

sobre o amor pela janela

"Quand nous sommes très forts, - qui récule ? très gais, - qui tombe du ridicule ? quand nous sommes trés méchants, - que ferait on de nous ?
Parez-vous, dansez, riez, je ne pourrais jamais envoyer l’Amour par la fenêtre."


arthur rimbaud.


quando somos muito fortes, - quem recua? muito alegres, - quem cai do ridículo? quando somos muito malvados, - o que se fará de nós?
enfeitai-vos, dançai, ride, eu não poderia nunca atirar o Amor pela janela.

segunda-feira, julho 30

a criança e o espelho

um dia disseram-me que era só imaginar os olhos que se deitam sobre as palavras que escrevo. eu tentei. e foi aí que percebi o potencial de brilho que existia em minhas vísceras, mas que só se podiam ver em seus olhos. bem sei que sangue, estômago e dor são idéias sujas, mas eu não posso fingir-me indiferente: elas estão lá e se misturam a minha fala a cada vez que tento alcançar o que me faz escrever - o amor, como também disseram-me. e continuaram: era então o amor que nos fazia confidentes das letras, reféns dessa força que nos faz aspirantes à qualquer forma de entrega, redenção. ou arte.

você sabe, às vezes, tudo isso realmente me aparece como uma possível revanche. o sucesso no fracasso, o ponto de fuga. uma reescrita da vida, dos passos, dos caminhos e, principalmente, das pessoas. é infantil, naïve e óbvio. é patético, mas, além da diversão, do prazer e das frustrações, a cada vez que deito-me em palavras, o faço por uma vontade de recriar. e me recriar diante desses olhos que me lêem, os seus.

e então, como eu dizia, aprendi a imaginar olhos. e os fiz à imagem de pequenos anjos. aprendi desde pequena que rezar é aconchego porque é um estado potencialmente belo de não-solidão. lembro-me de uma manhã em que me inquietei em saber se deus me ouvia. não cheguei a me perguntar sobre sua existência. percebi que a história de "existir" era tão complexa quanto irrevelante, e decidi: se deus não existir, eu invento um. talvez houvesse um pequeno medo nessa determinação infantil, mas só agora vejo quão pretensiosa era aquela minha ingenuidade, que acreditava possível inventar deuses, assim, simples como rabisco no bloco de recados ao lado do telefone.

é... acho que agora me esqueci um pouco de deus, e me dedico ao passatempo vital de inventar olhos-anjos. até que isso também se revele uma pretensão ingênua

domingo, julho 29

6 - "escrevo profundamente por querer falar"

Acho que aos poucos vou ganhando esperteza. Vou aprendendo a contornar as palavras com cuidado, sem acordar o sono infinito que as envolve. Contorno a silhueta das palavras com a pontinha dos dedos e faço outras - novas - com barro, silêncio e espaços vazios. Depois, faço-as dormir o sono de morte. Cerro-lhes os olhos como quem beija um filho. Cerro os olhos das palavras e me despeço da sua luz vazia.

Desejo que essas linhas componham a geografia insuspeitada de um sujeito sem marcas, que perdeu as suas palavras. Vou tentar dizer um lugar. Com a minha língua vazia vou, só com o que é de agora, deixando vazar nesse espaço uma vida de papel, que não é para ser vivida, é extasiante e fina.

Colho os espinhos para eles deixarem de ser rosa.

Ter uma existência menos oblíqua não define a minha escrita.
Espeto meus dedos nessa experiência, quase os perco.

Eu leio, não escrevo mais. Aqui me acomodo com grande dificuldade.
A linha é sempre ambígua, como tudo que não tem conteúdo: é o próprio conteúdo. Linha, pedra, palavra.

Essa escrita não tem ossos, nem articulação. É venosa, capilar, final.

quarta-feira, julho 25

pão-duragem

"Sentado ao seu lado na cama, enquanto a luz se esvaía e a voz firme de Miss Burden ia perdendo o seu caráter próprio (...) Christmas pensava: é como todas as outras. Tenham dezessete ou quarenta e sete anos, quando chega o momento de se entregarem de todo, o fazem com palavras."

aff.

segunda-feira, julho 16

Este texto são linhas se quebrando antes de se tecerem

Tornou-se preciso dividir a caligrafia de um significante. E depois cortá-lo ao meio com um arame fino. Com um arame fino, separar as letras, pintá-las de vermelho.


Aos ausentes.

2- Você, senhor, acorda os livres ramos de tecido que cobrem meu corpo. Desperta essa malha viva e morta que visto quando me dispo. Alegro-me rapidamente com os fios repulsivos da minha quase memória adoecida, chamada pela violência da fala. É a pena que me ocorre, a que não tem peso, tem textura. E é óbvio: é áspera. Pego a pena, traço-a sem desenhá-la nesse papel que sabe devolver um medo que é meu, a torta dor da menina que dorme no quarto ao lado.

Mas eu quero perder a consciência e a memória. A noite escura me chama, e, porque há o medo, minha resposta afirma meu fascínio, ainda que eu não diga um “sim”. O fato é que eu vou ficando cega e, por recusar o dia, procuro nessa cegueira um ponto de desconhecido que me leve a outro lugar onde eu não esteja, onde permaneça apenas meu corpo cintilando entre outros corpos sem voz.

A noite. A claridade da noite escura, amparando a luminosidade própria das coisas. Os efeitos da voz e das mãos. É a abertura do corpo (e) da escrita – sua boca e seus dedos -, é um modo de gesticular que engendra dentro e fora - sua boca e seus dedos -, que vai cerzindo as superfícies do mundo e das palavras e deixa restos de sentido - sua boca e seus dedos -, até construir significantes de beleza nova: sua boca, seus dedos. E, então, começar tudo de novo.

3 – porque estivemos sempre no palco.

Eu olhava por entre as grades enquanto você dançava com a saia mal presa nos dedos e os olhos quase detidos nele. Eu estava ali e você também, mas te olhar era como atravessar um mundo. Era violento e triste.

4 - Eu devia ter escrito pra ela que estar à beira não significa nada. Falar da borda é falar de lugar nenhum, ainda que se comunique alguma coisa. Saí do casulo e agora me arrasto no fino limite que separa os mundos. Tudo muito perigoso, eu sei. Nada escrito no meu corpo, esse papel em branco.

Eu devia ter dito a ela que ando tapando os ouvidos e cegando meus olhos. Que o casulo me expulsou pro inferno, pros dias infernais em que a ausência vai me engolindo rapidamente e eu desapareço, rouca, nas mãos de Deus, esse outro papel em branco.

domingo, julho 15

atirado pela janela

e as palavras voltariam a brotar da ferrugem nos dedos, da calma do silêncio e do vento no rosto. porque o amor, simplesmente não se pode calar. mesmo que acene adeus na queda livre que percorre rumo ao que se mostra tão real quanto inalcançável: seu fim.

o restante possível

Porque só posso falar de mim, somos aqui de novo, mais longe e mais perto. Feito fumaça. Um vapor sem temperatura. Nessa nossa ressaca inevitável de tudo o que já passou. Um resto de embriaguez que aqui se revela. Um tanto de fingimento sincero. E vice-versa. Contra-senso. Teimosia. Teimosia, acima de tudo.