As pessoas sempre nas ruas, com seus relógios de pulso. Era um tipinho anti-social, que achava prazeres em lugares impossíveis. O calor do anonimato, dos jatos d’água, de uma arquitetura urbana. Colecionava breves anotações que compilava de alguns muros, livros, rótulos. Nunca compreendeu a vida dos vizinhos.
As pessoas sempre dentro das casas, com seus almanaques eletrônicos, suas risadas abafadas pela solidão. O calor da luz elétrica, da tv, das telas, quadros, espelhos. Era um tipinho anti-social que jamais conversara com os bichos. Interessavam-lhe poucos livros, quase nenhum amigo, algumas palavras.
Em seu quarto havia garrafas d’água por todos os lados, um abajur de luz branda, roupas espalhadas para que fossem encontradas. Fumava às vezes pra ver se alguma coisa acontecia. Gostava da chuva, da noite, do silêncio das músicas.
Em su’alma, um terror apaziguado pelo arrastar do tempo, pelas noites de sono, pelas bebidas cálidas. Certa vez exagerara na dose. Foi encontrado uma semana depois, com o corpo finalmente habitado pela vida extasiante dos pequenos animais.
quarta-feira, julho 23
domingo, julho 13
Salto
Enquanto eu entrecortava frases tristes, seus olhos, pouco a pouco, tornavam-se um poço mais fundo, como se pudessem retirar-se de si para, então, reencontrar-se, penetrando na fundura infinita de sua esfera sem centro. Tentei conter o peso das palavras, trazê-las pela borda, pela sua sobra: o riso. Mas era tarde, algum estrago já tinha sido feito, uma visão terrível fora acessada naquela conversa mal entendida, sobre os perigos do jogo, sobre os prazeres do jogo. Ela tinha agora um poço nos olhos, negros, que diziam de quedas. “Devemos evitá-las”, eu respondia-os. Ela tentava conter o alargamento desse espaço profundo, interromper a extensão incalculável de sua dor – de sua queda -, mas vazava os olhos, numa potência envergonhada do próprio amor. Fugir era, pois, fincar-se, escavar mais e mais o lugar infinito da ausência.
terça-feira, julho 8
ensaio* de tradução e réplica.
1. Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure**
2. Vem a noite, soa a hora
eu permaneço, os dias vão embora
3. eu aqui fico, o amor vai-se agora
eu desapareço, o amor se demora
eu puro vento, o resto, memória
eu me repito
partir
fim de história
*ensaio no sentido de essai, essayer, tentar.
** le pont mirabeau, de guillaume apollinaire
*** tenho vergonha de rimas, mas aprecio o eventual exercício do descaramento.
Les jours s'en vont je demeure**
2. Vem a noite, soa a hora
eu permaneço, os dias vão embora
3. eu aqui fico, o amor vai-se agora
eu desapareço, o amor se demora
eu puro vento, o resto, memória
eu me repito
partir
fim de história
*ensaio no sentido de essai, essayer, tentar.
** le pont mirabeau, de guillaume apollinaire
*** tenho vergonha de rimas, mas aprecio o eventual exercício do descaramento.
sexta-feira, julho 4
desparáfrase, ode ao que vai.
desparafraseio, então: o nunca foi o melhor lugar em que já estive.
porque lá era simples assim: se o hoje é aqui (o nunca), onde seria amanhã pouco importava. a liberdade calava o medo, morriam teorias de amor. apagavam-se as escritas, e o peso da eternidade,, construir uma casa no nunca é livrar-se da esperança, e ver desabar o instante em puro agora. não padecer pelo além, mas bastar-se nele. e fazer-se vento, bastar-se no mundo grande. era preciso viver a palavra: partir.
porque lá era simples assim: se o hoje é aqui (o nunca), onde seria amanhã pouco importava. a liberdade calava o medo, morriam teorias de amor. apagavam-se as escritas, e o peso da eternidade,, construir uma casa no nunca é livrar-se da esperança, e ver desabar o instante em puro agora. não padecer pelo além, mas bastar-se nele. e fazer-se vento, bastar-se no mundo grande. era preciso viver a palavra: partir.
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