quarta-feira, julho 23

Assim:

As pessoas sempre nas ruas, com seus relógios de pulso. Era um tipinho anti-social, que achava prazeres em lugares impossíveis. O calor do anonimato, dos jatos d’água, de uma arquitetura urbana. Colecionava breves anotações que compilava de alguns muros, livros, rótulos. Nunca compreendeu a vida dos vizinhos.

As pessoas sempre dentro das casas, com seus almanaques eletrônicos, suas risadas abafadas pela solidão. O calor da luz elétrica, da tv, das telas, quadros, espelhos. Era um tipinho anti-social que jamais conversara com os bichos. Interessavam-lhe poucos livros, quase nenhum amigo, algumas palavras.

Em seu quarto havia garrafas d’água por todos os lados, um abajur de luz branda, roupas espalhadas para que fossem encontradas. Fumava às vezes pra ver se alguma coisa acontecia. Gostava da chuva, da noite, do silêncio das músicas.

Em su’alma, um terror apaziguado pelo arrastar do tempo, pelas noites de sono, pelas bebidas cálidas. Certa vez exagerara na dose. Foi encontrado uma semana depois, com o corpo finalmente habitado pela vida extasiante dos pequenos animais.

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