domingo, julho 13

Salto

Enquanto eu entrecortava frases tristes, seus olhos, pouco a pouco, tornavam-se um poço mais fundo, como se pudessem retirar-se de si para, então, reencontrar-se, penetrando na fundura infinita de sua esfera sem centro. Tentei conter o peso das palavras, trazê-las pela borda, pela sua sobra: o riso. Mas era tarde, algum estrago já tinha sido feito, uma visão terrível fora acessada naquela conversa mal entendida, sobre os perigos do jogo, sobre os prazeres do jogo. Ela tinha agora um poço nos olhos, negros, que diziam de quedas. “Devemos evitá-las”, eu respondia-os. Ela tentava conter o alargamento desse espaço profundo, interromper a extensão incalculável de sua dor – de sua queda -, mas vazava os olhos, numa potência envergonhada do próprio amor. Fugir era, pois, fincar-se, escavar mais e mais o lugar infinito da ausência.

Um comentário:

Anônimo disse...

usei esse texto no meu blog, na seção Pargarávio da semana, ok?