domingo, abril 27

mater, mater.

quando mostrei a ele o papel amassado com minha letra miúda, ele dissera que parecia o grito de munch, e que era bonito. a outro ele, eu mostrava palavras alheias sobre um amor que não era meu porque era dele, mas que também não era dele, porque de tantos outros. no entanto, talvez para não macular ou ofender a pureza e a sinceridade do que eu lhe oferecia, ele fez logo um elogio, que - claro, aceitei, na avidez mal contida que me era típica.

mais tarde estava eu a sentir o chão, experimentando a loucura em generosas doses. percorria um grande teatro. luzes apagadas : l'enfer c'est moi. respirei. quis sublinhar mentalmente as imagens que me assomavam, e tentava reconhecê-las, racionalizá-las, vencê-las. mas não pude. ao fim, encenei-as todas, debatendo-me como marie de godard em seus lençóis brancos.

não podia ser assim. sabia. mas de que me adiantava saber da falta de pulso e fôlego? e das veias, do vazio do corpo. eu me sabia, me repugnava, me continha. entre tantos movimentos: espasmos de nevermore. grande mentira e maior revolta, porque nada disso era novo.

bastaria me virar completamente pelo avesso uma única vez para que toda essa marca ficasse pra trás, toda a inércia. hoje levo feridas que insistem em invadir-me a memória a cada vez que o peso do querer ameaça os pulmões. apesar disso, entre os claros límpidos e ilibados seres inatingíveis, escondo um porém altivo. tenho um segredo, um carma, um céu e um inferno. o desespero e a esperança me foram dados em igual violência, brutalidade e tolice. tenho o silêncio o sono e a noite: a cura?

sexta-feira, abril 25

no fundo do espelho interminável

Trazia uma branc’asa sobre os braços, a quem curar os ferimentos sofridos graças à longa viagem de fuga do sertão. E remir os pecados durante o procedimento de assepsia das penas, aquelas funduras ásperas por onde metia as mãos, a fim de salvar a ave que desistia pouco a pouco de tentar nova fuga. “Acalme-se, branc’asa, que a fortuna já vem”, dizia o velho, sabendo que toda solidariedade se firma num solo de primitiva inocência, obriga uma singeleza dessas em que se fala a aves na língua dos homens. “Acalme-se, branc’asa”, repetiu várias vezes. Um instante de descuido, então, e aquelas asas brancas entreviram um facho de céu pela janela, por onde alçou um vôo torto, sonhando azul em tanta água intocável.

quinta-feira, abril 24

para casa: o que fazer com a saudade

O espaço desfaz-se nos teus olhos. O tempo enclausurado neste instante puro, que esfacela os minutos em volta. Duas aulas sobre como cortar a marcha ininterrupta dos ponteiros. Duas aulas numa imagem só, neste rosto que há muito não vejo, e vejo o tempo todo, numa lição infinita. De espaço, de tempo. Sua aula. Petrifiquei-a, para mim. Para meu uso, para meus sonhos, para nosso xadrez e ardor. Porque uns tais olhos, a cintilar de eternidade, crispa-me de repentina vida, em sonora impossibilidade manifesta – você. Tantas cartas, tantos versos, tantas ofensas de vetor homônimo. Uma mesma direção, esta imagem petrificada, só minha. Lugar dos meus sonhos, onde me dissolvo inteira numa tépida traição – esse nosso jogo. O torpor das peles, mergulhadas em espaço líquido, fluido. Imponderáveis seus gestos acima da cabeça vil. Atrás, sempre atrás, o maestro impassível, vegetando uma orquestra subterrânea. Que você ouve à noite quando fecha a porta do seu quarto de família - reduto dos anjos. Quereria eu saber. Então fui. À noite, previa, os anjos executam essa canção secreta em nossos ouvidos e eu durmo com teus olhos, as tuas aulas, nesse para-sempre-jamais que passei a habitar.

segunda-feira, abril 21

em Petits poèmes en prose

"Au fond de ses yeux adorables, je vois toujours l'heure distinctement, toujours la même, une heure vaste, solennelle, grande comme l'espace, sans division de minutes ni de secondes - une heure immobile qui n'est pas marquée sur les horloges..." Baudelaire

domingo, abril 20

pioneer to the falls

3 e 33 da manhã. Quarta-feira, noite adentro. O cabelo cheirando a cigarro e três fracassos no bolso. Interpol no fundo. É preciso uma cidade grande.

O estômago ardendo. A vida se concentra toda ali. Estou só, com Interpol, sem sono.

A mulher havia morrido, secretamente, enquanto eu pensava na falta que você me faz. E me senti mal, meu Deus, me senti mal com a morte inesperada dessa mulher desconhecida, corroída por medicamentos que prometiam milagres. Não adianta. Quase nada adianta, é fácil constatar.

terça-feira, abril 15

qualquer um

Esgotar-me-ei, eu disse baixo. Estou neste minúsculo ponto que separa dois mundos. O primeiro foi uma abertura inicial. O segundo: a resignação dos justos. O que estou dizendo, você pergunta. Não sei responder quase nada que me perguntam, é tudo que posso afirmar agora.

Neste ponto tudo é escasso, definitivo. Não terão explicações eficazes, é só um ponto e pronto. Isso é a justiça, a justiça começando, resignada ante suas próprias leis. Eu canto: um. E está-se diante do primeiro nascimento. Enxoto o terceiro e o segundo número que se multiplicaram sem a minha ordem, para, assim, morar na ambigüidade seca e masculina de um.

Sim, ainda tenho aquele engasgo abaixo da garganta. E uma estupidez urbana me consumiu até este momento. Este ponto segundo em que me encerro, em dispersão sonolenta e dura, como dura é a matéria de que é feito. Incorpora o diabo apenas quem conhece a santidade, disso sempre soube. E aqueles que rezam ainda confundem santos e demônios. Porque as pessoas não chegaram nesse ponto conclusivo ao qual só se chega por distração.

É assim: só faz uma oração quem se esquece de Deus.
Essa foi a ordem. Então, o ponto.