sexta-feira, abril 25

no fundo do espelho interminável

Trazia uma branc’asa sobre os braços, a quem curar os ferimentos sofridos graças à longa viagem de fuga do sertão. E remir os pecados durante o procedimento de assepsia das penas, aquelas funduras ásperas por onde metia as mãos, a fim de salvar a ave que desistia pouco a pouco de tentar nova fuga. “Acalme-se, branc’asa, que a fortuna já vem”, dizia o velho, sabendo que toda solidariedade se firma num solo de primitiva inocência, obriga uma singeleza dessas em que se fala a aves na língua dos homens. “Acalme-se, branc’asa”, repetiu várias vezes. Um instante de descuido, então, e aquelas asas brancas entreviram um facho de céu pela janela, por onde alçou um vôo torto, sonhando azul em tanta água intocável.

3 comentários:

sue disse...

mas que história linda

Unknown disse...

isso dá um ótimo primeiro capítulo...

Unknown disse...

aliás, vou até escrever alguma coisa depois de ler isso, é inspirador de alguma forma