A essa sua rudez que a ele, e só podia ser assim, parece graciosa, ela responde com uma ternura inabitual: “agora não”. “Mas está tudo bem, não gostamos um do outro” - diziam, a não ser desse modo indireto e obliquo que ele chamava desejo. Sem a mediação do amor, desejaram-se durante todo esse tempo que se seguiu após as duas últimas estações. Ele de olhos grandes sobre seus seios, e ela tentando entender o que se passava por detrás de seu ceticismo cínico, o qual manejara astuciosamente em função do que queria. Nesses encaixes, rendeu-se, ele sabia bem, rendeu-se por vezes a um jogo nebuloso e vil, no qual ela andava como andam as sombras dentro da espessura de uma vida – a vida do homem. Para saciar a impetuosidade morna daquele descontínuo mas insistente desejo, tomaram emprestado os sentimentos de outros, e fizeram uso sujo de camas alheias. Tudo para criar espaços que sobrepujassem os dejetos de amores já idos. Justapondo, feito entulho de lixo, amores mortos, podiam, com toda a mácula do mundo nas mãos, oferecer um ao outro essa dose de indiferença – amarga bebida - que alimentava aqueles corpos que fingiam um desalento legítimo – era preciso fingir todo o tempo. Solenemente, criavam uma certa curta distância entre si – aí instalaram o encontro.
“Sei que não devo dizê-lo, mas digo assim mesmo, em cima de seu tolo triunfo, tamanha é a obviedade da conclusão: o desalento, querido, o desalento, a ficção, toda o cinismo que cabe num rosto, o desejo esvaziado de toda a corporeidade é a tradução ruim de um precário amor.” – com as palavras mornamente encolerizadas, ela organizava essa sintaxe.
quinta-feira, junho 5
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