segunda-feira, dezembro 24

para não parar

Estar a criar palavras rasteiras, baixissimamente. Ela, dona da sua perdição, caminha, descalça, entre pedregulhos maciços. Ruína é tudo o que se pode ser. Estar a criar palavras rasteiras, baixissimamente. Descer. Deixar-se reduzir ao que é mais irredutível, um pulso. Minorar o excesso numa pele pálida e impassível.

Assusto-me com essa dupla morte, revejo se vive. Ela, neste instante, encolhe-se, e acerto: trata-se de uma vida retida na morte, miudamente. Estava a criar palavras rasteiras, baixissimamente.

terça-feira, dezembro 11

a repartição dos pães

a fome saciada em pratos brancos e limpos sobre a mesa. na sala de jantar, toalhas claras, janelas abertas, luz suave.
havia prazer ao se aproximar o que se unia pelo vazio opostamente manifesto - oferta e desejo - à semelhança de abismos que deparavam com seus respectivos avessos.

talvez fosse a fome, a falta, e, quem sabe, também os olhos que tudo viam e tudo ostentavam.
disseram ter sido a espera pela espera que, nela própria, se bastava. talvez fosse mero nada disfarçado em encontro. mas os disfarces

terça-feira, dezembro 4

era docinha a cola ativada à saliva no envelope escrito à caneta-tinteiro. não era?

da carta aberta sobre a cama, vinha um mundo inteiro. da letra que passara de familiar a indecifrável, saíam rostos palpáveis, os domingos chuvosos, a tv e os gatos no quintal. nada de novo no longe de sempre. saudade, desejos e regrets incontidos na fala, extravasando pelas linhas desenhadas sobre o papel.
da carta aberta sobre a cama, escapava um mundo novo - aquele a que se aspirava, e saíam pessoas e seus sons, o medo, o cansaço. estava ali cada fio de cabelo, cada floco da neve rala que caía sobre a pele. estavam as folhas secas, o vento frio, a natureza morta.
era como se o quarto e as vidas se tornassem infinitos e insuficientes ao mesmo tempo. era como não caber naquele momento em que se espremiam vozes, rostos e faltas: o abismo atlântico que une em silêncio os traços que falam aos olhos que lêem.