sábado, novembro 24

a reza, a benção, a hora

e seria bom se teus olhos me alcançassem com calma e que você se sentasse na varanda e me ouvisse. mãe. tu e outras. tu e tantas. tantas e únicas.

seria bom se em minhas mãos já não tão limpas houvesse flores. uma tulipa, um vaso, um presente. eu me assento sob o suave enquadramento de tuas vistas cansadas e a fala, também suave, torna-se música. seria bom se cantássemos.

e há a garganta, mãe. os golfos de silêncio e, digo-te mais, há também abismos. eu me sentava no alto de montanhas e sentia frio. minhas mãos suavam, eu tirava fotos e chorava baixo. mãe, entenda, era uma alegria violenta e doce, timidamente histérica. só eu ouvia meus gritos de êxtase.

e mãe, eu não sei. juro-te que não sei e ponho panos mornos sobre o desespero de às vezes estar assim, tão perdida. escondo-me. porque há tanto ... tanto que já não é como antes. e mesmo que sempre tenha sabido da inconsistência e inconstância das pessoas e dos rostos que lhes damos, ainda assim, mãe, eu nunca pensei que os traços de minha face no espelho também fugiriam ao controle de minhas mãos.

mas você me olha da varanda com a intensidade do que é divino e exato. e o pai também se senta à mesa e, veja!, ele nem se preocupa em espantar os cachorros que se aproximam. as meninas vêm por último, elas trazem mais flores, e agora somos todos.

mãe, tenho medo. peça para que tirem logo essa foto. preciso respirar, tocar-te o rosto, sentar-me junto de vocês. preciso sentar-me e descansar. junto de vocês.

domingo, novembro 18

aquele em que troppman, pretensioso e arrogante, desafia a nudez e tira suas meias velhas

se era preciso fugir do óbvio, respirar pelo avesso, inverter, subverter, reverter, se tudo isso era preciso, com licença, dois segundos, vou ali resgatar minha inconsistência mental e a desordem natural dos fantasmas que guardo. quer? quer então que abra aqui a caixa de pandora e me entregue ao imperativo da escrita que, tal qual a loucura, se faz de liberdade plena e pleno perigo. e se te disser do medo e do impossível, e se eu te disser das mãos maculadas, das máculas santas, da santidade pagã e do semper eadem em que nos mergulhamos, cegos e desesperados, incapazes de sustentarmo-nos enquanto aquilo a que aspiramos ser? subestimamos o peso. superestimamos a fraqueza. hoje eu vou rasgar livros e gritar pelas ruas. escrever em voz alta a essência e o segredo deste absurdo que, ainda que sufoque, nunca emudece.

e a pele desonesta era veludo, água, poeira e vento

e no copo que você colocou sobre a mesa, com a marca dos dedos sujos, ficou o resto do beijo. e na rua por onde arrastou seus pés, ficou um pouco dos passos.
e claro que havia o céu e o desejo nas veias. além de toda a beleza que podia ser, mas simples e inexplicavelmente, não era pra você. porque os olhos a sua frente não te olharam uma única vez sequer.
naquela noite, você dormiu como um anjo exausto. no corpo, ainda um pouco de êxtase sobrevivia, como os ecos da música mais bonita que já tocara seus ouvidos.
e ao acordar, suas mãos estariam sobre os ouvidos, tentando proteger o som distante que ainda persistia, porém cada vez mais fraco.
na verdade, eu só queria te pedir pra não se assustar com o silêncio quando a falsa melodia morrer: agora.