sábado, setembro 15

Farmácia

São de descaminhos que falo. E por que sempre dizer tu, se isso é mera e vazia construção de linguagem, uma língua resistente? Não sei se algum dia falei de alguma coisa que não fosse paixão. Sei, no entanto, que algo se mantém por um movimento entre paisagens tóxicas, verbais. Não é isso, era a resposta final. Não era isso o que esse tu, que não sei mais quem é, vislumbrou para um futuro que se dissolveu antes de existir. E por que resisto? Apalpo esse tu invisível, como num diálogo com deuses de um eu ateu. Uma conversa fracassada, inócua, fascinada. Mas continuo dizendo, apesar disso, a partir disso, da paixão que sustenta e aniquila esta vida que aqui passa. Emigro, as palavras andam cada vez mais escassas. Retiro meus olhos mas não consigo parar de ver. Sei que é triste e só este trabalho, que não tem fim. E é feito de pedaços de um corpo que não pode mais ser ajuntado. Faço monstruosidades descontínuas, e muito primárias. São tudo e nada, são buracos. Talvez covas de tratar a morte, vales onde se cose o esquecimento. Isso tudo é papel rasgado e errância indigente. E tu aí, deste outro lado. Não sei quem desapareceu com mais velocidade nesse jogo de acenos eternos, de gestos perdidos. Porque é tudo matéria de perdição, é cacoete, se repete. E não paro de escrever-te cartas que não têm endereço. Quem sabe um dia cantá-las? Lanço-as como os cigarros já fumados, como as palavras que perderam o conteúdo. Lanço ao rio sem margem de vertiginosas águas sujas que tudo engole. Turvas de vermelho como a minha língua louca, apaixonada.

4 comentários:

Unknown disse...

às vezes tenho medo que apenas poucas pessoas sintam essas coisas...às vezes acho que todos sentimos, que somos todos muito iguais...

o texto me lembrou aquela frase do Cony "Você disse tudo quando respondeu: 'Nada'."

sue disse...

isso tudo me lembra marguerite duras e o outro que não se alcança.

se bem que

em outro dia isso poderia me lembrar marguerie duras e a possibilidade de alcançar o outro. eu me confundo entre essas verdades "pendulares".

Anônimo disse...

Maraíza,

engraçado você ter falado em "Amar um cão".

Estou lendo justamente o penúltimo romance do Lobo Antunes...




..."Eu hei-de amar uma pedra".

Cães e pedras são muito diferentes, eu sei, mas são formas de amor... mais à pele, eu diria...

Anônimo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.