quarta-feira, setembro 26

O marido

Com um sorriso doce nos lábios, a mulher, ao ouvir seu nome, entrou na sala clara.
_ Doutora, esses machucados são novos, mas são os mesmos de antes, e não se preocupe: doem tão pouco. Essa casca que dá por cima aqui, ta vendo? Olha! Essa casca faz sarar.
_ Mas foi ele de novo? É preciso que ele seja denunciado, abandonado, senhora.
_ Não, doutora, você não entende, você não é casada? Ele me bate porque gosta muito de mim. Gosta tanto que esse sentimento parece que não cabe mais dentro dele, como o meu cabe em mim. Não é ele, mas a paixão que é agressiva, doutora, ele me bate porque não suporta me ver triste. Então, veja bem, ele quer bater na dor, na dor que eu sinto, e não em mim. É por preservação, sabe doutora? Ele nunca suportou me ver chorando, e então ele me bate, mas dói mais nele, tenha certeza. A dor maior é dele, porque não pode ser o continente do próprio amor, que vaza, feito uma vasilha furada.
_ Mas as feridas, a cada vinda sua, estão piorando, ficando mais graves.
_ É porque nossa relação está cada vez melhor, mais próxima, mais intensa. Não olhe com essa cara, eu não estou louca. Estou apenas me abrindo com a senhora, porque não há com o que se preocupar. Ele é um homem sensível, doutora, e eu acho isso muito bonito nos homens, porque é raro ver homens que choram e amam assim. Já contei que o que ele mais gosta na vida são dos filmes cantados, aqueles musicais que ele assiste muito concentrado, várias vezes, decora as canções, canta elas no meio do filme, e no fim, chora tanto que é de doer o peito. Nesses dias, é como se ele perdesse um parente próximo, de tão choroso que é o choro. Eu não tenho muita paciência com esses filmes não, eu durmo no meio e ele se chateia com isso. Mas é que não sou como ele, tenho a alma rasa, cotidiana, como ele me disse certa vez, com uma cara assustada.
_ Estou tentando entender.
_ Então. As vezes que fico um pouco triste ou que pareço esquecida dele, ele fica muito nervoso, vira um bicho, quer arrancar essa estranheza de mim. E me bate e grita muito. Uma vizinha me disse que isso é coisa de possessão, que ele precisa mesmo é de tomar uns passes. Mas as pessoas acreditam muito no demônio e pouco no amor. Mas, de todo jeito, rezo pra ele. Rezo pra que esse amor doa menos nele. Eu, por mim, estou bem, tenho admiração. Ele me bate porque é um santo.

6 comentários:

sue disse...

antes de bater palmas eu abaixo os olhos e me recomponho. mas apesar do respeito e até mesmo admiração pela mulher do sorriso doce, tenho que falar, e talvez essa simples obrigação "moral" soe pra mim mais como um elogio, enfim, tenho que falar que isso aí - as bofetadas, a dor, a compreensão e, o "pior" de tudo, a crença no amor alheio - é coisa de louco.

sue disse...

admiração por mulher que apanha.
sem cometários.

sue disse...

sem comeNtários.

maraiza disse...

han.. rs..

Unknown disse...

cara, pior que eu conheço uma IGUAL!!

hehe

Anônimo disse...

Maraíza...

posso publicar essa no meu blog???

Tudo devidamente creditado a você, e ao blog de vocês, claro!

bjO