terça-feira, outubro 2

atenção. contém epifania

josé era seu suor na mão. seu piscar descontrolado, quase um tique nervoso. josé tomava whisky do quinto ao décimo dia útil e pinga no resto do mês. tinha filhos, teve duas esposas e muitas amantes. também teve uma mãe, que morreu no ano passado. atropelada na porta do hospital, numa quarta-feira nublada. devia ser agosto. josé era meio cego e não podia dirigir, andava de metrô todo dia e aproveitava o percurso de casa até o jornal para ler. hoje ele tinha dom quixote debaixo do braço. mas não o tirou de lá porque, logo a seu lado, um passageiro teve um ataque estranho. josé viu a morte saindo do olhar assustado do homem que levantava a mão para o alto e parecia vomitar A verdade em gaguejos intermináveis e ligeiramente amedrontadores. josé olhou pela janela e viu que a morte esperou até a próxima estação para descer e pôs-se a seguir uma jovem que carregava um bebê no colo. assim que a sombra estendeu seus longos braços e tocou o rosto do menino, o coração de josé parou _______________________ mas logo ecoou por todo o metrô uma gargalhada doce e inocente de criança, que se divertia como se brincasse com anjos. josé ergueu a sobrancelha, franziu a testa. entretanto, não se deteve na surpresa. deu logo firmes batidas em seu peito, tossiu algumas vezes e, uma vez recuperado, ajeitou o paletó. saiu do lado do epiléptico e foi em pé até sua estação . naquela segunda-feira, josé deu um real ao cantor da praça e pensou duas vezes antes de jogar um pedaço de papel no chão. acabou jogando assim mesmo, mas depois sentiu uma contorção no estômago que lembrava a sensação de arrependimento.
você nunca mais foi o mesmo daquele dia em diante, disse a josé uma louca cartomante, que, dez anos depois, hesitaria entre as duas histórias traçadas sobre o suor das mãos a sua frente: a vida qualquer de um grande homem e a grande vida de um homem qualquer.

5 comentários:

maraiza disse...

é linda esta imagem: "ecoou por todo o metrô uma gargalhada doce e inocente de criança, que se divertia como se brincasse com anjos". e tantas outras. sempre quis escrever algo em que o metrô fosse personagem. uma figura, porque mais do que cenário, o metrô é um barulho que não pára nas pessoas.

Gostei muitíssimo, tropp!

maraiza disse...

"e parecia vomitar A verdade em gaguejos intermináveis". hehe Adorei isso tbém.

sue disse...

o troppman mandou dizer que roubou a imagem do vômito do faulkner e que depois vai colocar aqui a tal passagem semi-plagiada.

maraiza disse...

o Haroldo chamaria isso de tradução.

Unknown disse...

U A U =O!!!