Para Sue, a amiga que deixa caber o infinito
Stela, lembro bem dela, era uma menina quieta, falante, mas de uma falância muda, se é que se pode dizer assim. Marta tinha os dedos sempre cruzados debaixo da blusa, confiava num acaso promissor, um horizonte paradisíaco aonde chegaria apenas se acreditasse nele. Nunca vi olhos tão luminosos em minha vida. Não me lembro mais como se encontraram pela primeira vez. Sei, no entanto, que o tal encontro despertou nelas uma falância diversa, mas também muda, que desde então não cessaria. Escreviam cartas uma a outra, quase diariamente, para o estranhamento de todos, dada a proximidade de suas casas. Encontravam-se rotineiramente e conversavam de modo distraído e alegre como fazem todas as amigas, mas isso não bastava. Precisavam escrever, e era na escrita que impunham uma gravidade na voz, um tom subterrâneo para tocar os assuntos do mundo.
Mal sabiam, entretanto, que interessava menos os assuntos do que o próprio tom, aquele canto caligrafado, cifrado, quase. Escreviam sem motivo, como num vício. Era um puro estremecimento, um modo de deixar os acontecimentos suspensos, os pêlos hirtos. As pessoas viam aquela troca de envelopes meio amassados com os olhos enviesados, a eles pareciam cartas de amor.
As letras eram mesmo tóxicas, sabiam. A palavra tinha o peso de uma pedra dura e aquelas meninas jogavam essas pedras uma a outra com o cuidado de quem experimenta um escândalo. Trocavam, escandalosamente, palavras em estado de choque. Criaram um espaço onde podiam deixar passar o extraordinário, que ficava, antes, retido nos olhos. Mal entendiam o que liam, porque descomunicavam o mundo. Certa vez, Marta passara um longo tempo num país longe e frio. Stela ficara aqui, imaginando que a amiga, morando numa casa que mais parecia um castelo, era rodeada por um longo gramado uniformemente plano. Parecia um deserto sem areia, muito verde. Talvez porque era assim a solidão que Marta sempre sentiu, feita de um deserto úmido. Stela dizia que a solidão de Marta era bonita de olhar, era imensa, mas doce, uma paisagem, uma pintura.
Com a distância, as cartas podiam ser trocadas mais à vontade. Marta escrevia várias e Stela as recebia com o coração meio aos pulos, sentir-se o destino daquela escrita era como ter permissão para entrar naquele deserto úmido e olhar o quanto quisesse aquela imagem fascinante e vertiginosa. Mas agora as cartas que recebia, além do canto, traziam um mundo distante, um impulso pra fantasia pueril de Stela, que continuava, na sua falância muda, a falar sobre nada. Agora, era diferente, as cartas eram de viajante, e tinham um cheiro de cereja rosa, cheiro que Stela jamais experimentara.
Marta voltou daquele país frio e ainda hoje, já adulta, escreve a Stela. Talvez mesmo vizinhas sempre vivessem em países distantes, talvez nunca duas pessoas tivessem sido tão próximas. Escrevem, ainda hoje, cartas sem conteúdo. É um modo de convocar uma abertura no chão e vislumbrar o abismo mesmo com medo de sucumbir nele. Olhar o deserto, olhar o abismo: as meninas, Marta e Stela, juntas, aprenderam a deixar vazar o silêncio das palavras. E tateiam esse silêncio para fazer jorrar dele um mundo de cerejas doces.
Stela, lembro bem dela, era uma menina quieta, falante, mas de uma falância muda, se é que se pode dizer assim. Marta tinha os dedos sempre cruzados debaixo da blusa, confiava num acaso promissor, um horizonte paradisíaco aonde chegaria apenas se acreditasse nele. Nunca vi olhos tão luminosos em minha vida. Não me lembro mais como se encontraram pela primeira vez. Sei, no entanto, que o tal encontro despertou nelas uma falância diversa, mas também muda, que desde então não cessaria. Escreviam cartas uma a outra, quase diariamente, para o estranhamento de todos, dada a proximidade de suas casas. Encontravam-se rotineiramente e conversavam de modo distraído e alegre como fazem todas as amigas, mas isso não bastava. Precisavam escrever, e era na escrita que impunham uma gravidade na voz, um tom subterrâneo para tocar os assuntos do mundo.
Mal sabiam, entretanto, que interessava menos os assuntos do que o próprio tom, aquele canto caligrafado, cifrado, quase. Escreviam sem motivo, como num vício. Era um puro estremecimento, um modo de deixar os acontecimentos suspensos, os pêlos hirtos. As pessoas viam aquela troca de envelopes meio amassados com os olhos enviesados, a eles pareciam cartas de amor.
As letras eram mesmo tóxicas, sabiam. A palavra tinha o peso de uma pedra dura e aquelas meninas jogavam essas pedras uma a outra com o cuidado de quem experimenta um escândalo. Trocavam, escandalosamente, palavras em estado de choque. Criaram um espaço onde podiam deixar passar o extraordinário, que ficava, antes, retido nos olhos. Mal entendiam o que liam, porque descomunicavam o mundo. Certa vez, Marta passara um longo tempo num país longe e frio. Stela ficara aqui, imaginando que a amiga, morando numa casa que mais parecia um castelo, era rodeada por um longo gramado uniformemente plano. Parecia um deserto sem areia, muito verde. Talvez porque era assim a solidão que Marta sempre sentiu, feita de um deserto úmido. Stela dizia que a solidão de Marta era bonita de olhar, era imensa, mas doce, uma paisagem, uma pintura.
Com a distância, as cartas podiam ser trocadas mais à vontade. Marta escrevia várias e Stela as recebia com o coração meio aos pulos, sentir-se o destino daquela escrita era como ter permissão para entrar naquele deserto úmido e olhar o quanto quisesse aquela imagem fascinante e vertiginosa. Mas agora as cartas que recebia, além do canto, traziam um mundo distante, um impulso pra fantasia pueril de Stela, que continuava, na sua falância muda, a falar sobre nada. Agora, era diferente, as cartas eram de viajante, e tinham um cheiro de cereja rosa, cheiro que Stela jamais experimentara.
Marta voltou daquele país frio e ainda hoje, já adulta, escreve a Stela. Talvez mesmo vizinhas sempre vivessem em países distantes, talvez nunca duas pessoas tivessem sido tão próximas. Escrevem, ainda hoje, cartas sem conteúdo. É um modo de convocar uma abertura no chão e vislumbrar o abismo mesmo com medo de sucumbir nele. Olhar o deserto, olhar o abismo: as meninas, Marta e Stela, juntas, aprenderam a deixar vazar o silêncio das palavras. E tateiam esse silêncio para fazer jorrar dele um mundo de cerejas doces.
4 comentários:
aí eu falo assim:
Sometimes a man must awake to find that really, he has no one...
cara, vc está cada vez melhor com esses teus adjetivos...rs
texto macio e doce.
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