sábado, outubro 20

Água que se morre

Corro acima do leito escuro dessas águas de sábado. Pairo. Vejo o movimento insistente do curso dessa pequena tempestade. Um leito de rio, um tálamo, conjugando matérias sexuais. Aquelas que se excluem durante o movimento de aproximação. E são lançadas para fora, para a borda do círculo imaginado ao redor do movimento brusco. E se transcriam nesse atravessamento - uma expulsão -, nessa transversalidade. Um tálamo negro, com um cachorro do lado, observando a ida, a despedida infinita, brava, sonolenta. Para sempre adiada. Tempo. Tempo. Diluído na capa de água negra da madrugada. A direção aponta pro sudoeste, pra distâncias inavaliáveis. As águas, sobre as pedras, desarrumam os lençóis da insônia cativa, incutem um lodo verde-marrom nos travesseiros leiteiros. Uma mosca pousa na camada fina por cima da pele da água, e morre abocanhada por um abismo que se abre sobre essa calmaria absoluta. No umbigo da água, a explicação de tudo.

4 comentários:

Anônimo disse...

Sempre ela, em movimento,

sempre ela reconectar

sempre ela a me permitir respirar o retorno à natureza

lodo, planta, terra, pedra.

O umbigo inatingível.

maraiza disse...

o umbigo, o centro oco, sempre suspenso.

Unknown disse...

carai, tinha usn 97634953694587346 anos que eu não ouvia a palavra tálamo...rs

sue disse...

wow mara. este é um dos mais densos que já li entre os teus. vai levar tempo pra decantar. já ouvi uma história de primeiridade e entendi como o ficar de boca aberta. pois bem, não consegui passar da primeiridade do contato com a coisa.