segunda-feira, fevereiro 11
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Usar apenas uma pequena parte do papel passa a ser o mais importante depois de algumas tentativas desajustadas. Mas, veja bem, isso não é um desperdício, é um gesto precioso e exato. Porque, se escrever tem algo de uma medida cirúrgica, a operação é minuciosa, caro leitor, minuciosa e fatal. Ou nunca desconfiou de que escrever é sempre uma fatalidade, mas uma fatalidade que nunca acontece, não é fato? A operação é vertiginosa, exige cuidado, porém, é preciso acrescentar, é irremediavelmente desastrosa. Porque a palavra é precária, a sintaxe é pouca. Tenta-se, inclusive, retirar, muitas vezes, o que resta dessa (insuficiente) sintaxe, afrouxá-la, enrijecê-la com outros nós, torcê-la a fim de que possa abrir o pensamento, tonificá-lo. O que resta dessa violência: quase nada. Trata-se, contudo, da velha e opaca imagem com que teima minha experiência: das ruínas, algo sempre está a erguer-se. Algo improfícuo? Talvez... Mas que nada se mantenha por muito tempo de pé. Porque os museus são tão cansativos, são intocados. A escrita, ao contrário, é movimento. Lembremos da delicada dança da ponta de uma caneta sobre o papel inteiramente branco, caligrafando... Delicada dança do sacrifício humano, de homem-letra que sussurra como um enfermo que sucumbe devagar e se afoga em segredo na própria doença. E docemente fecha os olhos para nunca mais abrir. Silenciosamente, estamos fechando os olhos para sempre. É nesse momento que se dobra a página e recoloca a caneta, deitada, num estojo antigo e retangular escondido no fundo da gaveta. Sabe como é, toda essa insistência – é sempre uma pretensão insistente – é vergonhosa. Se obedecêssemos sempre ao impulso primeiro e mais sensato de nossa consciência, lançaríamos, após concluídos, todos os textos ao lixo imediatamente e não restaria nada, absolutamente nada a que se ler. Entre uma coisa e outra, deixe, portanto, um risco melindroso, mas oblíquo, no canto da página, ao menos rubrique seu nome, mande uma carta em branco a algum desconhecido. Risque as pautas até a metade da folha, e angustie o leitor. Deixe que ele vislumbre o abismo em que se arrisca a palavra, e nós mesmos. Deixe que ele toque suas mãos trêmulas que suspendem, por instantes, as suas linhas tortas. E depois resignar-se, porque nada, nada se pode fazer.
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2 comentários:
sobre a fatalidade, eu creio que escrever é - antes de qualquer coisa - um encontro com a palavra... e aí vou ser obrigado a pegar emprestada uma frase do robert menasse que diz "Pois é, talvez todo encontro casual seja, na verdade, um encontro marcado."
Prefiro afirmar a impossibilidade do que me resignar.
Afirmar a impossibilidade e sair dançando por aí...
beijo, autora!
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