sexta-feira, fevereiro 22
O reparo
Num radinho antigo, em volume quase inaudível, tocava qualquer música veiculada por uma emissora selecionada ao acaso. A voz do cantor, quase emudecida nas pequenas caixas de som, vinha de um canto escuro da sala, enquanto estava Augusto a engastar-se no conserto do liquidificador velho e embaçado de sujeira. A casa tão vazia quanto sua cabeça, esquecida das memórias que outrora tentara espantar. Augusto deixava rolar as horas da madrugada. Já passava de meia-noite e não sentia sono. Esquecido era mesmo a palavra mais exata para fazer referência a esse homem que, imbuído dessa tarefa ordinária, relevante para as donas-de-casa e os maridos menos abastados, atribuível ao dia-a-dia de um qualquer, esquecia-se quem era. Não cogitava até mesmo a importância de tal empreitada, uma vez que talvez mais fácil fosse comprar logo um aparelho novo e limpo e se livrar de vez daquelas miúdas peças. Pouparia trabalho e gastaria apenas uns trocados. Mas tal raciocínio era ignorado nesse instante. Augusto cumpria sua tarefa como um cego que anda em linha reta, firme, sem bengalas ou cão-guia, esquecido, inclusive, de sua própria cegueira. A destinação daqueles movimentos, do reparo daqueles objetos – rosca, parafusos, lâminas, motor –, pouco importava. Sem saber, aquilo o distraía de uma coisa chamada existência para que existisse sem a sua idéia. Tratava-se de uma solidão incredulamente perfeita, porque, ela também, não era a memória de si, nem expectativa de si, mas algo silenciosamente vivido num gole infinito e instantâneo. Não se tratava de rancores rememorados, tristeza, medo ou neuroses típicas da vida moderna, onde mergulham não raramente os homens celibatários contemporâneos. Augusto era apenas um homem que, numa madrugada quente, consertava, sozinho, o seu liquidificador.
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Um comentário:
essa abordagem analítica da personagem credencia o texto como um forte candidato para o site "jornal das pequenas coisas"...cujo endereço, por sinal, eu não lembro...rs
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