Tornou-se preciso dividir a caligrafia de um significante. E depois cortá-lo ao meio com um arame fino. Com um arame fino, separar as letras, pintá-las de vermelho.
Aos ausentes.
2- Você, senhor, acorda os livres ramos de tecido que cobrem meu corpo. Desperta essa malha viva e morta que visto quando me dispo. Alegro-me rapidamente com os fios repulsivos da minha quase memória adoecida, chamada pela violência da fala. É a pena que me ocorre, a que não tem peso, tem textura. E é óbvio: é áspera. Pego a pena, traço-a sem desenhá-la nesse papel que sabe devolver um medo que é meu, a torta dor da menina que dorme no quarto ao lado.
Mas eu quero perder a consciência e a memória. A noite escura me chama, e, porque há o medo, minha resposta afirma meu fascínio, ainda que eu não diga um “sim”. O fato é que eu vou ficando cega e, por recusar o dia, procuro nessa cegueira um ponto de desconhecido que me leve a outro lugar onde eu não esteja, onde permaneça apenas meu corpo cintilando entre outros corpos sem voz.
A noite. A claridade da noite escura, amparando a luminosidade própria das coisas. Os efeitos da voz e das mãos. É a abertura do corpo (e) da escrita – sua boca e seus dedos -, é um modo de gesticular que engendra dentro e fora - sua boca e seus dedos -, que vai cerzindo as superfícies do mundo e das palavras e deixa restos de sentido - sua boca e seus dedos -, até construir significantes de beleza nova: sua boca, seus dedos. E, então, começar tudo de novo.
3 – porque estivemos sempre no palco.
Eu olhava por entre as grades enquanto você dançava com a saia mal presa nos dedos e os olhos quase detidos nele. Eu estava ali e você também, mas te olhar era como atravessar um mundo. Era violento e triste.
4 - Eu devia ter escrito pra ela que estar à beira não significa nada. Falar da borda é falar de lugar nenhum, ainda que se comunique alguma coisa. Saí do casulo e agora me arrasto no fino limite que separa os mundos. Tudo muito perigoso, eu sei. Nada escrito no meu corpo, esse papel em branco.
Eu devia ter dito a ela que ando tapando os ouvidos e cegando meus olhos. Que o casulo me expulsou pro inferno, pros dias infernais em que a ausência vai me engolindo rapidamente e eu desapareço, rouca, nas mãos de Deus, esse outro papel em branco.
2- Você, senhor, acorda os livres ramos de tecido que cobrem meu corpo. Desperta essa malha viva e morta que visto quando me dispo. Alegro-me rapidamente com os fios repulsivos da minha quase memória adoecida, chamada pela violência da fala. É a pena que me ocorre, a que não tem peso, tem textura. E é óbvio: é áspera. Pego a pena, traço-a sem desenhá-la nesse papel que sabe devolver um medo que é meu, a torta dor da menina que dorme no quarto ao lado.
Mas eu quero perder a consciência e a memória. A noite escura me chama, e, porque há o medo, minha resposta afirma meu fascínio, ainda que eu não diga um “sim”. O fato é que eu vou ficando cega e, por recusar o dia, procuro nessa cegueira um ponto de desconhecido que me leve a outro lugar onde eu não esteja, onde permaneça apenas meu corpo cintilando entre outros corpos sem voz.
A noite. A claridade da noite escura, amparando a luminosidade própria das coisas. Os efeitos da voz e das mãos. É a abertura do corpo (e) da escrita – sua boca e seus dedos -, é um modo de gesticular que engendra dentro e fora - sua boca e seus dedos -, que vai cerzindo as superfícies do mundo e das palavras e deixa restos de sentido - sua boca e seus dedos -, até construir significantes de beleza nova: sua boca, seus dedos. E, então, começar tudo de novo.
3 – porque estivemos sempre no palco.
Eu olhava por entre as grades enquanto você dançava com a saia mal presa nos dedos e os olhos quase detidos nele. Eu estava ali e você também, mas te olhar era como atravessar um mundo. Era violento e triste.
4 - Eu devia ter escrito pra ela que estar à beira não significa nada. Falar da borda é falar de lugar nenhum, ainda que se comunique alguma coisa. Saí do casulo e agora me arrasto no fino limite que separa os mundos. Tudo muito perigoso, eu sei. Nada escrito no meu corpo, esse papel em branco.
Eu devia ter dito a ela que ando tapando os ouvidos e cegando meus olhos. Que o casulo me expulsou pro inferno, pros dias infernais em que a ausência vai me engolindo rapidamente e eu desapareço, rouca, nas mãos de Deus, esse outro papel em branco.
6 comentários:
seu pintar de vermelho acabou aproximando unhas e letras. adorei.
também gostei muito do corpo como "malha viva e morta que visto quando me dispo". corpo em branco. lindo. só não mais lindo que "mas te olhar era como atravessar um mundo. Era violento e triste."
texto pra ler repetidas vezes e cada hora achar uma beleza nova..
texto ser impresso..
texto PARA ser impresso. duh.
tava subentendido... hehehe
.... alergia a "subentendimentos"..
"100% de entendimento ou suas palavras de volta." slogan da comunicação eficiente. a vida fica muito mais simples assim.
Nossa, como eu concordo com isso!Pra vida prática, é perfeito.
o troppman me parece bem mais sábio quando mal-humorado. hihi
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