sábado, novembro 24

a reza, a benção, a hora

e seria bom se teus olhos me alcançassem com calma e que você se sentasse na varanda e me ouvisse. mãe. tu e outras. tu e tantas. tantas e únicas.

seria bom se em minhas mãos já não tão limpas houvesse flores. uma tulipa, um vaso, um presente. eu me assento sob o suave enquadramento de tuas vistas cansadas e a fala, também suave, torna-se música. seria bom se cantássemos.

e há a garganta, mãe. os golfos de silêncio e, digo-te mais, há também abismos. eu me sentava no alto de montanhas e sentia frio. minhas mãos suavam, eu tirava fotos e chorava baixo. mãe, entenda, era uma alegria violenta e doce, timidamente histérica. só eu ouvia meus gritos de êxtase.

e mãe, eu não sei. juro-te que não sei e ponho panos mornos sobre o desespero de às vezes estar assim, tão perdida. escondo-me. porque há tanto ... tanto que já não é como antes. e mesmo que sempre tenha sabido da inconsistência e inconstância das pessoas e dos rostos que lhes damos, ainda assim, mãe, eu nunca pensei que os traços de minha face no espelho também fugiriam ao controle de minhas mãos.

mas você me olha da varanda com a intensidade do que é divino e exato. e o pai também se senta à mesa e, veja!, ele nem se preocupa em espantar os cachorros que se aproximam. as meninas vêm por último, elas trazem mais flores, e agora somos todos.

mãe, tenho medo. peça para que tirem logo essa foto. preciso respirar, tocar-te o rosto, sentar-me junto de vocês. preciso sentar-me e descansar. junto de vocês.

6 comentários:

maraiza disse...

puxa, q texto bonito... uma lavoura.

sue disse...

as pessoas deveriam ter o seguinte pensamento antes de escrever: esconda as tripas. ou pelo menos as disfarce.

Bruno Pedrosa disse...

que delicadeza, sue.

maraiza disse...

não me canso de ler este.
figou-me.

maraiza disse...

fi-S-gou-me

c. disse...

olha, bem q a janayna falou q seu texto é bonito...