segunda-feira, julho 30

a criança e o espelho

um dia disseram-me que era só imaginar os olhos que se deitam sobre as palavras que escrevo. eu tentei. e foi aí que percebi o potencial de brilho que existia em minhas vísceras, mas que só se podiam ver em seus olhos. bem sei que sangue, estômago e dor são idéias sujas, mas eu não posso fingir-me indiferente: elas estão lá e se misturam a minha fala a cada vez que tento alcançar o que me faz escrever - o amor, como também disseram-me. e continuaram: era então o amor que nos fazia confidentes das letras, reféns dessa força que nos faz aspirantes à qualquer forma de entrega, redenção. ou arte.

você sabe, às vezes, tudo isso realmente me aparece como uma possível revanche. o sucesso no fracasso, o ponto de fuga. uma reescrita da vida, dos passos, dos caminhos e, principalmente, das pessoas. é infantil, naïve e óbvio. é patético, mas, além da diversão, do prazer e das frustrações, a cada vez que deito-me em palavras, o faço por uma vontade de recriar. e me recriar diante desses olhos que me lêem, os seus.

e então, como eu dizia, aprendi a imaginar olhos. e os fiz à imagem de pequenos anjos. aprendi desde pequena que rezar é aconchego porque é um estado potencialmente belo de não-solidão. lembro-me de uma manhã em que me inquietei em saber se deus me ouvia. não cheguei a me perguntar sobre sua existência. percebi que a história de "existir" era tão complexa quanto irrevelante, e decidi: se deus não existir, eu invento um. talvez houvesse um pequeno medo nessa determinação infantil, mas só agora vejo quão pretensiosa era aquela minha ingenuidade, que acreditava possível inventar deuses, assim, simples como rabisco no bloco de recados ao lado do telefone.

é... acho que agora me esqueci um pouco de deus, e me dedico ao passatempo vital de inventar olhos-anjos. até que isso também se revele uma pretensão ingênua

Um comentário:

maraiza disse...

sabe aqueles textos que a gente tem vontade de mostrar pra td mundo?
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