domingo, agosto 26
De como José se tornou um tributável
Voltara, então, a enxergar. Depois daquele dia, sua vida foi, até o último segundo, normal. Exatamente normal, exemplarmente normal. E José, em segredo pouco disfarçado, ostentava sua normalidade como modesta superioridade em relação aos outros ... seres humanos ... que ... debatiam-se, caíam e, seu estômago revirava-se em pensar como eles, os seres humanos, rastejavam-se pelo chão em busca de seus sonhos. José não sonhava, fazia planos. E alcançava-os todos. Era uma simples questão de método. Assim como conseguira seu bom emprego, tivera dois filhos saudáveis, ambos com futuro promissor, notas boas na escola, bonitos e inteligentes... mas não muito, ainda bem! Eram espertos o suficiente para terem um trabalho digno, e além do que... ora, o plano de previdência e o seguro de vida já eram garantia de segurança financeira para os meninos quando José não estivesse mais entre eles. Ah, e havia Ana, com quem casara-se dois anos depois que .... dois anos depois que ...... voltara a enxergar. Ana não era bonita, nem feia. Era da medida certa. Assim como tudo na vida de José. Nem mais, nem menos, as coisas só precisavam ser suficientes. Era um homem raso, mas correto. Nunca cometera um crime, nunca avançara o sinal de trânsito e nem mesmo ultrapassara os limites de velocidade. Era competente e sentia um pequeno orgulho de si quando se dava com sua imagem no retrovisor do carro. Mas sempre desviava os olhos, com medo de que aquela ligeira satisfação se transformasse em vaidade. Ou dúvida. José era um homem milimetricamente médio. Tais fraquezas só serviriam para tirar-lhe a valiosa medida exata de seu mundo, sem a qual estaria ...... perdido?
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5 comentários:
ha ha
adorei!!!
tem algo meu ali. ou melhor: tem tudo o que não é meu. rs
vc sabe bem.
esse josé tem tudo o que me desespera. realmente tenho medo disso
excesso de medida continua sendo excesso. mas me parece enfadonho. aliás, há vida sem excesso?
melhor deve ser recusar o excesso excessivo, honey. putz, esquece tudo... de repente me deu um enjôo, uma vertigem.
não se pode falar dessas coisas.
pode sim, mara. lógico que não se deve, mas poder, pode..
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