quando mostrei a ele o papel amassado com minha letra miúda, ele dissera que parecia o grito de munch, e que era bonito. a outro ele, eu mostrava palavras alheias sobre um amor que não era meu porque era dele, mas que também não era dele, porque de tantos outros. no entanto, talvez para não macular ou ofender a pureza e a sinceridade do que eu lhe oferecia, ele fez logo um elogio, que - claro, aceitei, na avidez mal contida que me era típica.
mais tarde estava eu a sentir o chão, experimentando a loucura em generosas doses. percorria um grande teatro. luzes apagadas : l'enfer c'est moi. respirei. quis sublinhar mentalmente as imagens que me assomavam, e tentava reconhecê-las, racionalizá-las, vencê-las. mas não pude. ao fim, encenei-as todas, debatendo-me como marie de godard em seus lençóis brancos.
não podia ser assim. sabia. mas de que me adiantava saber da falta de pulso e fôlego? e das veias, do vazio do corpo. eu me sabia, me repugnava, me continha. entre tantos movimentos: espasmos de nevermore. grande mentira e maior revolta, porque nada disso era novo.
bastaria me virar completamente pelo avesso uma única vez para que toda essa marca ficasse pra trás, toda a inércia. hoje levo feridas que insistem em invadir-me a memória a cada vez que o peso do querer ameaça os pulmões. apesar disso, entre os claros límpidos e ilibados seres inatingíveis, escondo um porém altivo. tenho um segredo, um carma, um céu e um inferno. o desespero e a esperança me foram dados em igual violência, brutalidade e tolice. tenho o silêncio o sono e a noite: a cura?
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
"escondo um porém altivo."
Foda!
Postar um comentário